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O salão escuro, de paredes pretas, está tomado de jovens, que cantam e vibram com o som alto de uma banda formada por músicos cabeludos. Quando a cantoria acaba, a turma com pinta roqueira cede o lugar a um rapaz de calça jeans skinny, botas, camiseta podrinha e jaqueta de couro. Imediatamente, o silêncio reina no ambiente, e todos os olhos se voltam para o jovem, que segue para um púlpito e abre a Bíblia. Em inglês, ele prega: “crie oportunidade para ser mudado hoje à noite”. Era uma das mensagens do californiano Joshua Adams, de 29 anos, designer, fotógrafo e agora pastor, num culto de quinta-feira na Igreja United da Tijuca, que faz parte de uma nova safra de templos que arrebata fiéis no Rio. À frente de Joshua, alguns choram copiosamente. Todo o discurso do pastor é traduzido por sua mulher, Hannah, de 26, que já fala um português quase perfeito.

Os dois chegaram ao Rio há três anos, quando fundaram a United, considerada uma das novas igrejas diferentonas que vêm atraindo a atenção de uma parcela da juventude evangélica. A diferença está, sobretudo, na forma, no jeito de se comunicar e por não se enquadrarem em nenhuma denominação (como pentecostal ou neopentecostal). Enquanto isso, a essência não difere muito dos templos convencionais: sexo antes do casamento continua pecado, assim como homossexualidade. Consumo de álcool também não faz parte da realidade ali.

Criada na Igreja Batista, a estudante de design de moda da PUC Malu Gama, de 19 anos, conheceu a United no Instagram. Para ela, voluntária da parte de mídias sociais, a igreja “enxerga as coisas de Deus de forma criativa”. Com um visual hipster, que inclui barba, o músico Igor Montijo, de 29, tocava violão num culto. Ele cresceu na Assembleia de Deus e na adolescência frequentou a Batista:

— Eu queria uma igreja que não impusesse tradições. Uma pessoa de bermuda ou tatuada no rosto não vai ser mal vista aqui. Nas igrejas conservadoras, todo mundo tem que estar num padrão.

A United investe pesado em design e nas redes sociais. Um dos vídeos de divulgação no Facebook é protagonizado por uma menina de cabelos azuis. Hannah e Joshua são filhos de pastores. Os dois se conheceram na igreja Rhema de Oklahoma. As famílias eram amigas e “super crentes”, explica Hannah. Joshua tinha um irmão pastor em Belo Horizonte e veio algumas vezes ao Brasil antes de receber “um chamado de Deus” e embarcar com a mulher grávida de sete meses para o Rio. Os dois iniciaram as reuniões dentro do apartamento. Pais de duas meninas — de 3 e 1 ano —, vivem em Botafogo e comandam três unidades — Tijuca, Campo Grande e Caxias —, que reúnem cerca de três mil seguidores. O casal tem uma meta clara: abrir a cada ano um novo templo. Os recursos vêm de dízimos e ofertas.

— A nossa igreja quer ser uma bússola para os jovens — diz Hannah, negando que o culto seja um show.

A interpretação da Bíblia ali é “preto no branco”:

— Costumo dizer: levantem as bundas e façam algo para Jesus — conta Joshua, descontraído.

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Louvor com sabor de pipoca

Como o nome já adianta, a Igreja no Cinema (INC) não funciona num templo tradicional. Os cultos — ou melhor, sessões — são numa sala de cinema alugada no Recreio Shopping, aos domingos. Uma mulher com um colete flúor de contrarregra (denominação para os diáconos) resume o espírito:

— Imagine um culto tradicional. Agora, inverta.

O pastor Vinicio Silva, de 30 anos, que trouxe para o Rio a INC, fundada há três anos em Curitiba, costuma distribuir pipoca. No telão, videoclipes com canções da própria igreja, acompanhados por músicos ao vivo. No templo são trabalhados os cinco sentidos. Antes das sessões, há um café da manhã. Na sala, toda perfumada, as pessoas se tocam com mãos gigantes de pano. Numa poltrona, o pastor, conhecido como Vini, fala sobre a filosofia da INC consultando a Bíblia num aplicativo no celular:

— Tem gente que acha que Bíblia é desodorante. Mas, ler que é bom, nada.

Vini descobriu a INC no Facebook e mergulhou de cabeça no projeto após refletir sobre a evasão de igrejas evangélicas e a sua desconexão com a velocidade de informação e as novas tecnologias. Contador responsável pela parte fiscal de uma grande rede de sapatarias, o pastor coordenava a juventude da igreja Vida Nova. Bem humorado, Vini afirma que a INC segue a “inteligência Uber”: não quer construir nem multiplicar templos, mas sim compartilhar espaços. Não há planos de comprar um cinema. Também são feitos encontros na praia, no estilo luau. O pastor não tem salário, e as contribuições são aplicadas nos aluguéis. O que sobra, garante Vini, serve para ajudar gente da própria igreja.

As sessões reúnem cerca de 50 pessoas, basicamente de 18 a 35 anos. A proposta é ser uma igreja para quem não gosta de igreja.

— Há um incômodo com as igrejas convencionais, que batem nas pessoas, que falam o tempo todo em pecado, em inferno. Nunca vi uma pessoa entrar em disciplina e voltar depois melhor. Isso só gera mais feridas na alma — destaca o pastor, dizendo que um jovem tatuado pode ser visto como o “belzebu” em outras igrejas. — Não impomos um checklist de vida.

Com um piercing no nariz, a estudante de relações internacionais Aryanny Carvalho, de 21 anos, chegou à INC por curiosidade. Ela é da Igreja Batista também:

— As outras igrejas são muito quadradas nos métodos. São cheias de processos.

Depois de orar a Deus, a turma está livre para emendar, de graça, nas sessões de filmes do shopping. Uma das últimas produções vista pela turma foi, justamente, o polêmico “A cabana”, que vem sendo rechaçado por parte dos evangélicos ao valorizar a experiência religiosa pessoal em vez de a igreja.

Por Ludmilla de Lima, para O Globo
Fotos: Reprodução (Alexandre Cassiano/O Globo e Leo Martins/O Globo)