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"SOUC foi uma experiência fora do comum", avalia pastor Inácio Lemke

 
O pastor Inácio Lemke, presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), conversou recentemente com o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) sobre a Semana de Oração pela Unidade Cristã, edição 2020. A seguir, confira a íntegra da entrevista.
 
Qual foi a sua experiência mais memorável durante a Semana de Oração pela Unidade Cristã 2020? O que havia de novo na edição deste ano?
 
Pr. Inácio Lemke: Provavelmente a SOUC 2020 ficará em minha memória por muito tempo. Quanto mais a semana de 24 a 31 de maio se aproximava, mais dúvidas se apresentavam diante de mim e o mesmo sentimento também estava presente na mente e coração da diretoria do CONIC e seus representantes regionais.
 
Tivemos que reformular todas as nossas atividades de preparação para a SOUC, inclusive nossos seminários e encontros de estudos presenciais com um tema tão motivador: “gentileza gera gentileza”. Tivemos que adaptar o formato para seminários virtuais. Foi uma experiência fora do comum para muitas das nossas lideranças comunitárias das diferentes igrejas cristãs. Muitos dos nossos materiais já impressos ficaram encalhados e irão nos causar prejuízos para o próximo ano.
 
Todas as celebrações tiveram que ser preparadas e acontecer de forma virtual. Acumulamos uma experiência nova que, em princípio, deu muito certo. Se, por um lado, penamos com prejuízos econômicos por conta da não venda dos materiais impressos e ausência de coletas, por outro lado, ganhamos em experiência e divulgação eletrônica. Observamos que, por exemplo, no vídeo da celebração de abertura da SOUC tivemos mais de 17.500 acessos.
 
Como a sua relação com outras comunidades cristãs mudou orando juntos?
 
Pr. Inácio Lemke: Orar em comunhão com outras comunidades cristãs demonstra um gesto de confiança. Na caminhada ecumênica, é importante conhecer bem a dinâmica da sua igreja, mas também não ter medo do diferente. O ecumenismo nos enriquece e amplia nossa visão de comunidade, de uma igreja acolhedora onde ninguém perde, mas todos ganham.
 
O tema da Semana de Oração pela Unidade Cristã 2020, “eles nos mostraram bondade incomum”, convidou a refletir sobre a bondade e hospitalidade para com estranhos. Como isso ressoa no ministério diaconal da sua igreja? Isso fortaleceu seus esforços ecumênicos nessa área?
 
Pr. Inácio Lemke: O texto da SOUC 2020, escolhido e preparado pelas Igrejas de Malta, caiu como uma luva para o nosso contexto. O Brasil vive um momento histórico marcado por ódio entre diferentes grupos sociais, políticos e étnicos. Além disso, nos encontramos em isolamento por causa da COVID–19. Como se isso não bastasse, encontramo-nos numa das piores crises políticas já enfrentadas na história recente do nosso país, onde a vida é constantemente desprezada. Diariamente, nos confrontamos com as notícias de morte de crianças, adolescentes, jovens, mulheres, em sua maioria pessoas empobrecidas e negras, assim como povos indígenas.  Estas pessoas são, muitas vezes, mortas em ações da polícia, de milicianos ou por balas perdidas. Da mesma forma, segue a violência contra a natureza nos diversos biomas do nosso país, com desmatamentos das florestas da Amazônia, da Mata Atlântica, a ampliação das lavouras de soja, bem como a ampliação dos campos para criação de gado. Também segue aumentando a poluição dos rios e mares. Neste contexto vem o desafio para refletir sobre bondade incomum.
 
Nós tomamos a liberdade de adaptar o tema aqui no Brasil para "gentileza gera gentileza". Foi uma decisão acertada, pois uniu nosso esforço na unidade diaconal das diferentes igrejas e entidades parceiras. Creio que ficou claro que não podemos nos acostumar com a realidade do momento enfrentamos neste país. Não faz parte do plano de Deus uma sociedade dividida pelo ódio ou dividida em classes, gênero, etnias e cores. O tema desencadeou um processo de discussão sobre tolerância e intolerância. O quanto somos tolerantes com as pessoas que aqui vem buscar abrigo, nossos irmãos e irmãs haitianos/as, venezuelanos/as, bolivianos/as, ou ainda pessoas que vem do continente africano?
 
Foram levantadas discussões para encontrarmos caminhos para unir forças para inclusão de todas as pessoas, diante das pandemias do vírus e da crise política.
 
Mas cabe neste momento também dizer que o Brasil está diante de uma grande incógnita. Não sabemos o que vai acontecer amanhã neste país. Não sabemos como as nossas instituições irão sobreviver, sobretudo à pandemia política. Percebemos todos os dias o seu impacto nos trabalhos de solidariedade aos mais empobrecidos no Brasil. Como CONIC, procuramos unir forças com nossos parceiros para sermos voz de denúncia, voz profética e pastoral. Com esperança, anunciamos, na nossa casa comum, que gentileza gera gentileza.
 
Quais são seus planos e esperanças para a Semana de Oração Cristã 2021?
 
Pr. Inácio Lemke: Apesar de tudo, nosso desafio é levar esperança em meio às pandemias. Lembro do que escreveu um poeta da Amazônia chamado Thiago de Mello: “Faz escuro, mas eu canto!” Precisamos resgatar nossas músicas e poemas que falam de dor e luta, mas que também despertam esperanças. Não podemos nos acomodar nem nos acostumar com os prejuízos que estamos sofrendo e que as elites novamente estão impondo sobre a maioria da população e toda criação do Planeta.
 
Para a SOUC 2021, já estamos em diálogo para ampliar a inclusão de outras igrejas e instituições que se identificam na caminhada ecumênica.
 
Como CONIC, estamos cada vez mais envolvidos nos diálogos inter-religiosos, onde temos recebido os convites das religiões de matriz africana e indígena. Somos convidados pelas diferentes religiões para diálogo e construção de um mundo de paz. Nesses diálogos, nosso compromisso se pauta pelo Evangelho da inclusão, para que na humanidade inteira “gentileza gere gentileza!”
 
Desejamos a todas e todos Esperança e Paz!