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Quando Paulo Freire trocou Havard pelo Conselho Mundial de Igrejas

 
Por Magali Cunha
 
Eu tinha decidido que não escreveria sobre os cem anos de Paulo Freire nesta semana. Li tantos textos e postagens fantásticos que ressaltam a memória e a relevância indelével deste ícone da educação, que achei que seria repetitiva e deveria poupar quem lê meus escritos de mais um texto sobre o tema.
 
Porém, um elemento me incomodou nas tantas homenagens que circularam pelos espaços midiáticos: a ausência de destaque em um aspecto da memória de Paulo Freire que é fundamental para se compreender como ele se tornou esta figura proeminente no mundo todo.
 
Paulo Freire se tornou um educador das “esquinas do mundo”, como ele sempre dizia, porque manteve viva sua identidade religiosa cristã para além do catolicismo. Ele era um cristão ecumênico, coerente com a perspectiva dialogal e amorosa que defendia em suas reflexões e práticas educativas. 
 
Passei, então, a considerar relevante trazer aqui esta memória silenciada do que está para além do catolicismo progressista. Afinal está crescendo a antipatia de parte da intelectualidade e das esquerdas com tudo o que seja relacionado a igrejas, por conta das alianças de líderes deste segmento religioso com Jair Bolsonaro. Compreensível, mas nada sábio. Vamos recorrer à memória que é subversiva, mexe com os subterrâneos das nossas certezas, já dizia o teólogo evangélico Rubem Alves.
 
Ela remonta ao período em que Paulo Freire foi perseguido e preso pela ditadura militar do Brasil (1964-1985), e teve que enfrentar o exílio a partir de 1965. Viveu, primeiramente, no Chile, até 1969, quando teve que tomar a decisão de deixar esse país. 
 
Entre um convite para atuar na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e outro para integrar a equipe do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) como consultor de programas populares, Freire optou pelo CMI e articulou uma proposta que lhe permitiu um ano em Havard e um mergulho no movimento ecumênico. Ele assim relatou ao jornal Pasquim, em 1978:
 
“Eu preferia vir para o Conselho, porque o problema de ser professor para mim não se coloca. Eu me acho professor numa esquina de rua. Eu não preciso do contexto da universidade para ser um educador. Não é o título que a universidade vai me dar que me interessa, mas a possibilidade de trabalho. E naquela época eu sabia que o Conselho ia me dar a margem que a universidade não me daria. Eu temia, ao deixar a América Latina, perder o contato com o concreto e começar a me meter dentro de bibliotecas e começar a operar sobre livros, o que não me satisfaria e me levaria à alienação total. Não me interessa passar um ano estudando um livro, mas um ano estudando uma prática diretamente. O Conselho me dava esta oportunidade” (“Paulo Freire, no exílio, ficou mais brasileiro ainda”, entrevista a Claudius Ceccon e Miguel Darcy de Oliveira).
 
Desta forma, em 1970, Paulo Freire partiu para Genebra, Suíça, para assumir a função de consultor de Programas Populares em Educação do então recém-criado Escritório de Educação do CMI. Este vínculo que durou dez anos, até que Freire retornasse ao Brasil com a anistia, tornou possível que o educador e sua produção ganhassem projeção mundial. Foi neste período ele que fundou, com outros brasileiros exilados na Suíça, o Instituto de Ação Cultural (IDAC), para prestar serviços educativos, especialmente aos países do Sul Global (identificados como Terceiro Mundo, à época). 
 
Apesar da década em que atuou pelo CMI ter sido crucial para a construção e divulgação das ideias de Paulo Freire em todos os continentes, pouca atenção é dada por pesquisadores e memorialistas, a esse período. Num levantamento que fiz sobre produções acadêmicas no Brasil, dedicadas ao estudo deste período da vida e do trabalho de Paulo Freire, há uma tese de doutorado e uma dissertação de mestrado, cinco artigos acadêmicos, um verbete de dicionário, um capítulo de livro e uma entrevista em revista científica. No mais, há menções em vários textos, de diferentes naturezas, mas estas não mergulham na reflexão do que representou a inserção de Paulo Freire no movimento ecumênico mundial via CMI. 
 
Faço aqui uma síntese do que está registrado em texto que produzi para o capítulo do livro “Libertação e luta: o pensamento educacional e social de Paulo Freire”, organizado pelo Prof. Lincoln Araújo, pela Editora Veritas, que está no prelo para ser lançado em outubro. 
 
No texto, recupero trechos biográficos em que Paulo Freire narra uma base cristã, católica, familiar, que acompanhou o educador em toda a sua vida. Ele reconheceu seu afastamento da igreja (que atribuiu à distância entre a vida e o compromisso que ela exige, e o que diziam os padres nos seus sermões dominicais). Porém, ressaltou seu reencontro com ela, segundo ele, depois de se aproximar de Alceu Amoroso Lima, que usava em seus escritos o pseudônimo Tristão de Athayde, e era alinhado com o pensamento de Jacques Maritain, com cujo pensamento tinha afinidade.
 
O reencontro com o Catolicismo estreitou laços de Paulo Freire com a Teologia da Libertação, corrente teológica cristã ancorada na concepção de que o Evangelho exige a opção preferencial pelos pobres, em busca de libertação e vida plena. Em diversas manifestações escritas e faladas, Paulo Freire revelava sua fé como fonte de ação social. 
 
O Paulo Freire católico e ecumênico, optou, portanto, por atender ao convite do CMI em 1970. O CMI é uma associação de igrejas fundada em 1948, no contexto da busca da cura de feridas causadas por duas grandes guerras mundiais. Estas ações geraram o que passou a ser denominado, no século 20, por movimento ecumênico, sendo o CMI sua mais destacada expressão.
 
O organismo congrega hoje cerca de 350 igrejas-membros, que representam a maioria das denominações protestantes, anglicanas, ortodoxas, igrejas unidas, e outras, somadas a conferências e conselhos cristãos de diferentes países do globo de mais de cem países dos cinco continentes, representando mais de 550 milhões de cristãos. As ações estão ancoradas nas perspectivas da unidade cristã, da promoção da paz com justiça e dos direitos humanos e do diálogo e da cooperação inter-religiosas. A Igreja Católica Romana não se fez membro do CMI, mas participa em diferentes programas. 
 
O movimento ecumênico tem longa trajetória no Brasil e não são poucas as lideranças cristãs brasileiras que contribuíram para a constituição e consolidação do CMI, inclusive com integração aos seus quadros programáticos. Paulo Freire passou atuar no recém-criado Escritório de Educação do CMI, em 1970, na área de Programas Populares em Educação. Em extensão, tornou-se também professor no Instituto de Ciências da Educação da Universidade de Genebra, onde recebeu o título de Doutor Honoris Causa em Ciências da Educação, em 1979.
 
No evento que definiu o perfil do Escritório de Educação, a consulta “A crise da educação no mundo e a contribuição da Igreja", realizada em Bergen (Noruega), em 1970, Paulo Freire indicou que a tarefa das igrejas deveria ser: “testemunhar uma visão; envolver-se na educação para o bem mais amplo do que para o interesse próprio; inovar e depois abrir mão; para educar-se”.
 
Neste processo, a tarefa de Paulo Freire era realizada por meio de consultorias, seminários, presença em reuniões da UNESCO, participações em conferências, coletivas de imprensa e programas de rádio, encontros com políticos (como o Ministro da Educação de Portugal em 1974, logo após a Revolução dos Cravos). A prioridade era o, atualmente denominado, Sul Global – atuou na África, na Ásia, na Austrália, na Nova Zelândia, no Pacífico Sul e na América Central. 
 
Entre setembro de 1975 e abril de 1980, Paulo Freire viajou dez vezes para a Guiné-Bissau, seis vezes a São Tomé e Príncipe, cinco vezes para Angola e três vezes para Cabo Verde. Nestas ações ele atuou diretamente nas abordagens pedagógicas dos governos desses países, com o desenvolvimento de programas de alfabetização.
 
Por vezes, a dinâmica se invertia e o CMI se beneficiava, tornando-se um espaço para receber oficialmente pensadores-chave da educação na época, atraídos pela presença e atuação de Paulo Freire no organismo, como o pensador austríaco Ivan Illich. Paulo Freire afirmou que os dez anos que esteve vinculado ao CMI estão entre os melhores anos de sua vida, apesar da separação forçada do Brasil, de suas raízes. 
 
Identifiquei, nos levantamentos bibliográficos da produção de Freire naquela década, pelo menos 40 títulos entre livros, artigos, papers e entrevistas publicadas cuja temática relaciona o lugar da educação em relação ao Cristianismo, à teologia cristã, à ação ecumênica. Um texto significativo que ele produziu foi o prefácio do clássico livro “A Black Theology of Liberation” [Uma Teologia Negra da Libertação], de James Cone, de 1970, para a edição argentina de 1972. Nela, o educador afirma sobre os escritos de Cone: 
 
“Dizer sua palavra, por isso mesmo, não é apenas dizer “’bom-dia”’ ou seguir as prescrições dos que, com seu poder, comandam e exploraram. Dizer a palavra é fazer história e por ela ser feito e refeito. As classes dominadas, silenciosas e esmagadas, só dizem sua palavra quando, tomando a história em suas mãos, desmontam o sistema opressor que as destrói”.
 
Importa, diante dos duros tempos que as duas décadas já vividas do século 21 têm representado, reavivar esta memória do Paulo Freire cristão ecumênico, entre educadores e lideranças religiosas dentro e fora do das igrejas para que sirva de inspiração e estímulo para a formação da consciência crítica ecumênica e profética mais do que nunca tão necessária.
 
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Magali Cunha é jornalista e doutora em Ciências da Comunicação, coordenadora do Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (INTERCOM), membro da Associação Internacional em Mídia, Religião e Cultura e da Associação Mundial para a Comunicação Cristã (WACC).
 
Fonte: Carta Capital
Foto: Reprodução
 
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