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Recentemente, um conhecido líder neopentecostal brasileiro fez crescer uma grande polêmica nas redes sociais. Em um vídeo, ele dizia os motivos pelos quais tinha proibido que as filhas entrassem em uma faculdade antes do casamento.
 
Segundo explicou, se suas filhas tivessem ensino superior, elas seriam “a cabeça” da família. Para ele, o homem precisa ter um grau de instrução maior do que a mulher para que ele seja “o cabeça” do casal. Depois disso, o discurso repercutiu na internet, gerou revolta e também apoio.
 
Para entender o que a fala desta liderança representa, Giorgia Cavicchioli, do Yahoo Notícias, entrevistou a teóloga Vanessa Carvalho de Mello, 41 anos. A especialista é docente e coordenadora do Coletivo EIG – Evangélicas pela Igualdade de Gênero. Segundo ela, a fala de mostra uma “perceptível a falha na interpretação bíblica”.
 
De acordo com Vanessa, tal pensamento propaga “um discurso que diminui, desnivela ou exclui as mulheres”, o que não acontece na Bíblia. “Por vezes, a figura feminina é exaltada, cuidada e valorizada por Cristo”, afirmou.
 
Leia a entrevista completa:
 
Explique um pouco sobre o trabalho e a movimentação do coletivo.
 
Vanessa Carvalho de Mello: O coletivo Evangélicas pela Igualdade de Gênero é um coletivo que trabalha para uma consciência bíblico-teológica e política da condição de opressão e exploração sofrida pelas mulheres. Somos mulheres de fé que cooperam para zelar pela liberdade e autonomia das mulheres a fim de que estas possam praticar sua religião com dignidade, sem opressão e desigualdade. As mulheres evangélicas da EIG estão numa revisão contínua da fé cristã, questionando a leitura patriarcal dos textos sagrados, das desigualdades de gênero-classe-raça/etnia. Acreditamos na mobilização social, portanto lutamos e resistimos ao sistema patriarcal e ao neoliberalismo, não apenas como política econômica, mas como um “tsunami” cultural que reforça modos de vida individualistas.
 
Quais são as principais ações do coletivo?
 
Vanessa: Atuamos especialmente por duas dimensões: a da fé e a dimensão pública. Na dimensão da fé atuamos desde dentro de nossas comunidades de fé para mudar a vida de nossas irmãs sujeitadas a todo tipo de violência; e na dimensão pública, via incidências de políticas públicas afirmativas e implementações efetivas de nossa legislação ao que tange especificamente o nosso eixo norteador de ações que é o “enfrentamento das violências contra as mulheres.”
 
Explique um pouco da sua função dentro do coletivo.
 
Vanessa: Atuo como coordenadora do coletivo no estado do Paraná. Minha função dentro do coletivo é, sobretudo, a de contribuir para o fortalecimento e a articulação em rede com demais organismos, tanto da sociedade civil quanto do poder público, que atuam no enfrentamento à violência contra as mulheres e meninas, assegurando que as mulheres de fé/religiosas, sejam elas evangélicas ou não, vítimas de violência espiritual, física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral, tenham acesso e apoio dos serviços disponíveis.
 
Qual o objetivo do grupo?
 
Vanessa: A partir de nossa fé, nosso objetivo é propagar um feminismo entendido como um pensamento crítico sobre a situação das mulheres, estamos em um movimento maior que atua para mudar a situação das mulheres evangélicas em nossas igrejas e na sociedade. Infelizmente as mulheres evangélicas não estão fora das estatísticas. Há estudos que indicam porcentagens alarmantes de mulheres evangélicas vítimas de violência doméstica, na maioria das vezes perpetradas por seus companheiros, há inúmeros casos registrados de companheiros também de fé evangélica.
 
O que você acha da fala do bispo Edir Macedo sobre as mulheres, o trabalho, a educação e o matrimônio?
 
Vanessa: É claramente perceptível a falha na interpretação bíblica quando usada na propagação de um discurso que diminui, desnivela ou exclui as mulheres. Por vezes, a figura feminina é exaltada, cuidada e valorizada por Cristo. Como no relato dedicado ao diálogo com a mulher samaritana (Jo 4.1-15) que quebra paradigmas e preconceitos da época.
 
O que dizer sobre o trabalho e as mulheres?
 
Vanessa: Pode-se dizer que ele é o meio pelo qual o ser humano compreende a sua habilidade e competência de criação, execução e existência em convivência comunitária. É através do trabalho que a compreensão econômica do ser social é compreendida – cada ação humana é potencialmente uma fonte de produção. Para o mundo cristão, o indivíduo é vocacionado por Deus para o trabalho (serviço). Entende-se que o trabalho é a condição social que dá ao indivíduo o desenvolvimento dos seus dons e talentos. Neste sentido, homens e mulheres são chamados para o trabalho, não segundo o seu gênero, mas segundo o desenvolvimento de suas habilidades e competências.
 
Com informações do Yahoo Notícias
Foto: Pixabay (ilustrativa)

 
A Justiça brasileira julgou apenas 8% dos conflitos com mortes no campo nos últimos 33 anos. De acordo com levantamento da CPT (Comissão Pastoral da Terra) — ligada à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) —, apenas 117 dos 1.468 casos entre 1985 e 2018 foram avaliados por um juiz em alguma instância. Os conflitos resultaram em 1.940 mortos.
 
O relatório indica que 34 mandantes e 101 executores foram condenados. Outros 16 suspeitos de serem mandantes e 204 de serem executores terminaram absolvidos. O Pará é o estado campeão de conflitos: 484 no período, com 724 vítimas e apenas 22 julgamentos.
 
Estados com mais assassinatos no campo:
 
- Pará - 724 mortos - 22 julgamentos
- Maranhão - 168 mortos - 6 julgamentos
- Rondônia - 153 mortos - 2 julgamentos
- Bahia - 130 mortos - 2 julgamentos
 
"A maioria dos conflitos se dá no Pará porque as principais rotas para entrar na Amazônia passam por lá", afirmou ao UOL o advogado do CPT José Batista Afonso, um dos responsáveis pela coleta dos dados. "Muitos casos ainda cabem recurso."
 
Ele explica que a comissão tem escritórios espalhados por toda a região amazônica. "Fazemos o monitoramento dos processos em que há informação sobre alguma condenação. Acompanhamos algumas ações a pedido da família de vítimas e coletamos informações divulgadas por jornais regionais."
 
Quanto às 1.940 mortes no período, o advogado afirma que a quantidade está subestimada. "Embora seja um número alto, não representa tudo o que acontece na Amazônia, porque existem muitas áreas grandes e isoladas."
 
Membro da Coordenação Nacional da CPT, a ambientalista americana Jean Bellini diz que os conflitos no campo podem aumentar em 2019 depois de ter registrado 28 assassinatos no ano passado. "De janeiro para cá, o governo brasileiro vem aprovando medidas que aumentam a tensão no campo."
 
Ela cita o projeto de lei sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) sobre a posse de arma de fogo em propriedades rurais. Antes da sanção, era permitida a posse apenas na sede da propriedade rural. Agora, a regra permite transitar armado por toda a propriedade.
 
O texto afirma "que não tem sentido deferir a posse ao morador da zona rural, mas não permitir que ele exerça seu legítimo direito de defesa fora da sede da fazenda".
 
"A questão é que tem muita terra pública que não é propriedade de ninguém. Quem se acha fazendeiro, mas é grileiro, vai se sentir autorizado para defender a terra que não é dele", diz a ambientalista. "O direito à propriedade vale mais do que o direito à vida."
 
Os assassinatos não são o único tipo de violência no campo. "Existem intimidações e expulsões violentas, quase sempre por pistoleiros. Os camponeses não suportam a pressão: são homens armados que chegam aos acampamentos de madrugada atirando e ateando fogo. Muitos tentam se proteger, outros fogem e muitas famílias não voltam."
 
Só neste ano, 18 morreram no campo e outros dez casos estão sob investigação. Em março, Nemis Machado de Oliveira, 50, foi morto a tiros "durante a investida de pistoleiros sob ordens de grileiros" em um acampamento na cidade de Lábrea (AM), afirma a CPT. "Nemis teve parte do corpo queimado, enquanto famílias tiveram suas casas e pertences destruídos."
 
No dia 27 de fevereiro, o cacique Francisco de Souza Pereira, 53, foi assassinado em Manaus, na comunidade Urucaia. Foi morto "a tiros por três homens encapuzados diante da esposa e da filha no local em que morava".
 
Para o relator do projeto que liberou as armas em propriedades rurais, deputado Afonso Hamm (PP-RS), a nova lei "é uma das maiores vitórias do meio rural, de quem vive, trabalha e produz lá". "O objetivo não é armar o campo, mas criar condições de proteção a essas famílias residentes."
 
Fonte: UOL
Foto: Avener Prado/Folhapress

 
O Vaticano divulgou, no último sábado, 21 de setembro, a lista de todos os participantes da Assembleia do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, que será realizado em Roma, entre os dias 6 e 27 de outubro. Ao todo, 118 brasileiros foram convocados pelo papa Francisco, incluindo o relator-geral, cardeal dom Cláudio Hummes, e um dos três presidentes-delegados, o cardeal dom João Braz de Aviz.
 
A grande alegria do movimento ecumênico foi ver que, entre os bispos católicos, também estarão presentes irmãos e irmãs de outras igrejas cristãs, incluindo protestantes históricos, evangélicos, anglicanos, entre outros. Eles participarão como membros fraternos. Pelo Brasil, os nomes são: o historiador Moab César Carvalho Costa, evangelista da Igreja Assembleia de Deus em Imperatriz (MA); o pastor Nicolau Nascimento de Paiva, ligado à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e ao Conselho Amazônico de Igrejas Cristãs (CAIC); e dois nomes da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), Daniel dos Santos Lima, da Comunidade Anglicana de Manaus (AM), e o reverendo Cláudio Correa de Miranda, também integrante do CAIC.
 
Religiosos indígenas
 
 
Também estarão lá três religiosos indígenas amazonenses, da região do Alto Rio Negro: o padre e cacique do povo Tuyuka, Justino Sarmento Rezende; a freira Mariluce dos Santos Mesquita, do povo Bará, ambos Salesianos; e a irmã Francinete Galvão Noronha, do povo Tuyuka, catequista Franciscana.
 
Sociedade civil
 
Além dos religiosos e religiosas, a delegação brasileira contará com a participação da professora da Universidade Federal de Roraima, Marcia Maria de Oliveira; da coordenadora do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Judite da Rocha; e da agrônoma Ima Célia Guimarães Vieira, representante da comunidade científica no CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente).
 
Foto: REPAM

 
Belém, 22 de setembro de 2019
 
O Conselho Amazônico de Igrejas Cristãs (CAIC), que representa o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs na Amazônia Oriental, vem somar-se às manifestações de apoio à realização do Sínodo de Bispos da Igreja Católica para a Pan-Amazônia.
 
Esse encontro de 250 bispos católicos durante três semanas, no próximo mês de outubro, no Vaticano, com a presença do Papa Francisco, vem se somar às interpelações dos povos que habitam territórios dos nove países que compõem esta grande região, de maior diversidade ecológica do mundo, ameaçada pelas ações devastadoras de agentes, empresas e governos que têm priorizado ganhos materiais imediatistas à custa da morte e doença de milhares de pessoas e seres vivos, como são exemplos as recentes queimadas que aumentaram drasticamente no ano de 2019, em comparação com os anos anteriores. Também são exemplos dessa ação terrível a contaminação dos nossos rios pela atividade mineradora, a destruição de culturas tradicionais, indígenas e quilombolas pelo afogamento, devido a barragens, cuja energia é transferida para outras regiões, sem benefícios que compensem a vida dos povos locais.
 
Desde 2013, em sua viagem ao Rio de Janeiro, para a Jornada Mundial da Juventude, o Papa Francisco tem insistido na necessidade de “uma igreja com rosto amazônico”. Nós, da Amazônia Oriental, somos testemunhas dos esforços de nosso povo, com apoio de pastores, pastoras, padres, freiras e bispos, para que sejam enfrentados e resolvidos os problemas que a exploração capitalista impõe às populações locais. O combate à prostituição infantil, à pedofilia, à pistolagem, grilagem, queimadas, ao uso de venenos na agricultura, ceifaram a vida de servos e servas de Deus em nossos territórios, que se levantaram contra esses crimes hediondos.
 
Diante do exposto, conclamamos a todas e todos a apoiarem e se congratularem com os bispos dos nove países da Pan-Amazônia em sua iminente grande assembleia em prol da população desse território, com reflexos para toda a humanidade.
 
Que esse encontro seja o começo de um despertar dos povos do planeta para ações que tornem outro mundo possível, pautado na realização dos ensinos e obras de Jesus Cristo, nosso Senhor, guia, mestre e salvador.
 
Avante bispos, avante povo de Deus, mulheres e homens da Amazônia, para que se acelere a vinda do Reino de Deus e sua justiça.
 
Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – IEAB
Centro de Estudos Bíblicos – CEBI Belém/PA
Igreja Presbiteriana Unida  da Amazônia – IPU
Associação de Ciências e Religiões – ACER
Grupo Metodistas Ecumênicos – GME
Movimento FOCOLARES
Igreja Católica Apostólica Romana – ICAR

 
O governo federal, por meio do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), conseguiu decisão favorável da Justiça Federal para despejar, em Caruaru, interior de Pernambuco, o maior centro de formação nordestino do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).
 
O governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), que faz parte do bloco nordestino de oposição ao governo federal, tenta evitar a execução da sentença e já informou que não pretende usar a força policial para auxiliar na reintegração de posse, caso não se encontre uma saída.
 
“A orientação do governador é para que não ocorra conflagração, que este processo não seja executado”, diz o líder do governo na Assembleia Legislativa de PE, deputado Isaltino Nascimento (PSB).
 
O centro de formação, batizado há 20 anos com o nome do educador pernambucano Paulo Freire, faz parte da área comum do assentamento Normandia. O local conta com três agroindústrias, 52 alojamentos, salas de aula, auditório para 700 pessoas, centro comunitário, quadra esportiva, academia pública para atividades físicas, creche e refeitório.
 
Há duas semanas, o MST montou acampamento no local com 1.500 pessoas e espera dobrar a quantidade até o final desta semana. “Vamos resistir”, disse Jaime Amorim, um dos coordenadores nacionais do movimento.
 
O processo tramitava desde 2008 e foi transitado em julgado contra o MST no final de 2017. Em agosto passado, 20 dias após ser nomeado superintendente do Incra em Pernambuco, o coronel da PM Marcos Campos de Albuquerque solicitou que a Justiça Federal ordenasse o cumprimento da sentença.
 
O juiz da 24º Vara Federal Tiago Antunes de Aguiar acatou o pedido e deu prazo de 30 dias, a contar da notificação, para desocupação espontânea da área. Em seguida, após reuniões com representantes do governo estadual e deputados federais da comissão de direitos humanos da Câmara, o magistrado concedeu 10 dias para posicionamento oficial do Incra.
 
O prazo final é 10 de outubro, e o juiz determinou uso da força policial para cumprimento da medida. O Incra, diferentemente do que afirma o MST, alega que as construções na área comum do assentamento foram feitas sem a anuência do órgão federal.
 
O local é considerado o coração do movimento social na região por já ter formado, em parcerias com universidades federais e estaduais, mais de 8.000 pessoas só em cursos de graduação e pós-graduação.
 
Grande parte dos alimentos beneficiados nas agroindústrias de bolos, pães e carne abastece escolas municipais da região. Um dos exemplos é a Prefeitura de Caruaru. Aproximadamente 60% da merenda escolar é fornecida pelo assentamento, que possui máquinas de embalagem a vácuo.
 
Alunos da rede municipal tiveram aula no local neste ano porque duas escolas estavam em reforma. A associação do centro de formação também tem contratos para fornecimento de alimentos com a Secretaria Estadual de Educação e com a Prefeitura do Recife.
 
Há também cursos técnicos na área de agroecologia e parcerias, entre outras instituições, com UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), UPE (Universidade Estadual de Pernambuco), Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa de Agropecuária) e Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).
 
A fazenda, com 556 hectares, foi ocupada pelo MST em maio de 1993. Em abril de 1996, após greve de fome que durou 10 dias, uma equipe do Incra de fora de Pernambuco vistoriou o local e emitiu laudo atestando que o imóvel era improdutivo.
 
Um ano depois, o Incra concedeu a posse da área a 41 famílias. Posteriormente, o imóvel virou oficialmente um assentamento. Cada lote tem 10 hectares.
 
O líder dos sem-terra Jaime Amorim conta que, na época, a única orientação do Incra era para que as famílias dos assentados não utilizassem a casa grande. “Mas nos orientaram a destinar parte do assentamento para fazer capacitações. E foi isso que nós fizemos, tudo com a concordância deles.”
 
Após a formalização de duas associações, uma para cuidar do assentamento e outra para gerir o centro de formação, a área, além dos lotes individuais, foi dividida. Há uma agrovila (15 hectares), onde moram as famílias até hoje, uma reserva florestal (105 hectares), uma área para produção coletiva gerida por uma cooperativa (20 hectares) e o Centro de Formação Paulo Freire (14 hectares).
 
O movimento doou 0,7 hectare para a diocese de Caruaru porque havia uma igreja no local.
 
O processo administrativo teve origem logo depois que o imóvel virou assentamento. Quatro famílias de assentados acionaram o Incra por se sentirem prejudicadas pela construção do centro de formação na área de acesso do assentamento.
 
“O que aconteceu é que não demos bola, não atuamos no processo e perdemos em todas as instâncias. Não atuamos porque o próprio presidente nacional do Incra veio aqui em 2008 e disse para não nos preocuparmos que a questão seria resolvida administrativamente”, afirma Jaime Amorim.
 
Segundo o secretário de Agricultura de Pernambuco, Dilson Peixoto, o estado aceita receber a área numa solução negociada com o Incra. “Se, no final, existir realmente uma obrigatoriedade a partir de uma decisão judicial para cumprimento da sentença, a gente vai ter que debater, com o juiz seja lá com quem for, o nosso papel.”
 
Na sexta-feira passada (20), a procuradora federal dos Direitos do Cidadão, Deborah Duprat, encaminhou ofício à presidência do Incra pedindo um solução conciliatória e pacífica. Ela fez um histórico do assentamento e lembra que o local cumpre sua função social
 
Por meio de nota, o Incra lembra que a ação é de 2008 e foi instituída porque houve na área de domínio coletivo dos assentados a edificação do centro sem autorização do Incra. “Cumprida a ordem judicial, o Incra procurará regularizar a área na forma da legislação vigente, a fim de promover benefícios a todos os assentados”, diz. Não há detalhamento do que será feito na área.
 
Foto: MST
 

 
Três idosos foram presos na Chechênia, território russo, por suspeitas de práticas de feitiçaria. Duas mulheres e um homem foram detidos em Urus-Martan, na Rússia. O atual governante da Chechênia, Ramzan Kadyrov, parte de sua interpretação da lei islâmica para esse atual “combate a feiticeiros e bruxas”. 
 
A polícia religiosa, vestindo as camisas negras do Instituto Médico Islâmico, tem informado a detenção de vários suspeitos dessa prática. Segundo o site Kavkazsky-Uzel Caucasus, os suspeitos mais recentes foram acusados pela experiência em medicina popular e vaticínio.
 
Na televisão, os acusados confessaram "se associarem com djins [demônios]" e uma delas declarou já ter realizado procedimentos contra mau-olhado. Retratado constantemente pela TV Grozny, o chefe do IIM Adam Elzhurkayev aponta diversas evidências de bruxarias nesse caso, envolvendo ossos de galinha, garrafas e outros objetos.
 
Quando começaram as campanhas de combate à feitiçaria, várias pessoas foram mortas ou desaparecidas na Chechênia. Vale lembrar que este mesmo território tem sido acusado de políticas que violam os Direitos Humanos da comunidade LGBTQ+. Especialistas da ONU chegaram a denunciar casos de tortura e assassinatos de pessoas suspeitas de serem gays, lésbicas ou bissexuais. 
 
Com informações das Nações Unidas/Aventuras na História
Foto: Reprodução

 
O número de assassinatos de indígenas no Brasil aumentou de 110, em 2017, para 135, em 2018, um crescimento de 22,7%. Os estados com mais registros no ano passado foram Roraima, onde ocorreram 62 homicídios, e Mato Grosso do Sul, onde foram contabilizadas 38 mortes. 
 
As informações, levantadas a partir de mapeamento de casos em todo o país feito pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), estão no relatório Violência contra os Povos Indígenas do Brasil – Dados 2018. O documento foi lançado nesta terça-feira (24/09) na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília.
 
Em episódios classificados como “violência contra a pessoa”, o levantamento listou no ano passado 22 tentativas de assassinato, 18 homicídios culposos, 15 episódios de violência sexual, 17 casos de racismo e discriminação étnico-racial, 14 ameaças diversas, 11 situações de abuso de poder e oito ameaças de morte.
 
“Os povos indígenas são, historicamente, vítimas do Estado brasileiro porque, através das instituições que representam e exercem os poderes político, administrativo, jurídico e legislativo, ele atua, quase sempre, tendo como referência interesses marcadamente econômicos, e não os direitos individuais, coletivos, culturais, sociais e ambientais. A gestão pública é parcial, pois toma como lógica a propriedade privada, contrapondo-se à vida, ao bem-estar e à dignidade humana”, avalia dom Roque Paloschi, presidente do Cimi e arcebispo de Porto Velho, no artigo de apresentação do Relatório.
 
Invasões
 
A pesquisa também mapeou invasões de terras indígenas, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio dessas populações. Em 2018, a equipe responsável contabilizou 111 situações como essas. O número foi maior do que o registrado em 2017, quando o Cimi reconheceu 96 situações semelhantes.
 
No lançamento do documento, foram apresentados dados parciais relativos a 2019 até o mês de setembro. Segundo a entidade, foram mapeados 160 casos de invasão de terra ou exploração ilegal de recursos em 153 terras indígenas.
 
Conforme os responsáveis pelo estudo, se essas formas de violação contra os territórios ocorrem há décadas, recentemente muitos invasores deixaram de somente explorar ilegalmente os recursos (como apenas retirada de madeira) e passaram a se apropriar das áreas, por meio de práticas de grilagem e loteamento de parte dos territórios, por exemplo. O documento cita as terras indígenas Arariboia, no Maranhão, e Karipuna e Uru Eu Wau Wau, em Rondônia. Outro problema é a implantação de garimpos ilegais. De acordo com o Cimi, um exemplo é a terra indígena Munduruku, no Pará.
 
“O madeireiro entra, limpa a terra, tira a madeira e a área passa a ser destinada à especulação imobiliária. É a prática do fato consumado. Retira da terra o que ela tem para oferecer e repassa para o grileiro, que vai lutar para que esta área seja legalizada. E o Estado desestrutura os órgãos que deveriam coibir as invasões de terra”, pontuou Roberto Liebgott, um dos autores da pesquisa.
 
Demarcação
 
O relatório lista 821 casos de “omissão e morosidade na regularização das terras” e 11 conflitos envolvendo direitos territoriais. De acordo com o Cimi, de 1.290 terras indígenas no Brasil, 821 (63%) teriam o que a organização chama de “alguma pendência do Estado para a finalização do processo demarcatório". 
 
O cacique Suruí, do povo Pataxó e aldeia Barra Velha, em Porto Seguro (BA), afirmou o caráter originário dos povos e pediu a demarcação de terras indígenas. “Estamos no Brasil desde muito antes de Cabral. Nós somos os primeiros brasileiros, não somos os últimos. Estamos lutando por demarcação.”
 
Os representantes do conselho comentaram o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Asssembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que, na ocasião, disse que não pretende demarcar novos territórios. “Os povos indígenas, ao reivindicarem a demarcação de seus territórios, tornam-se alvos a serem combatidos. Que as chagas da violência não sejam patrocinadas por aqueles que devem combatê-las. Que o Estado se coloque ao lado dos direitos humanos e da natureza”, disse dom Roque.
 
Com informações do Cimi/Agência Brasil
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

 
Entre os dias 3 e 5 de outubro, o Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT) realiza a Missão Ecumênica pelas Águas dos Cerrados da Bahia no oeste do estado, estampando o lema: “Das nascentes ao São Francisco, águas para a vida!” Sob coordenação da CESE, a ação de incidência é realizada em parceria com diversas organizações sociais, movimentos populares e pastorais, entre elas, CONIC e Koinonia, além do apoio das agências internacionais HEKS/EPER; Christian Aid; Brot für die Welt e Misereor.
 
Desde 2015, o FEACT vem organizando missões com o objetivo de dar visibilidade nacional e internacional a situações de violação de direitos; fazer pressão a órgãos públicos na resolução dos conflitos; buscar uma maior aproximação das igrejas à realidade dos povos e reafirmar o compromisso ecumênico na defesa dos direitos humanos e ambientais.
 
Audiência pública, celebração ecumênica e visitas in loco irão compor a programação de atividades em comunidades dos municípios de Barreiras e Correntina.
 
Nesta região se encontram os rios das bacias do Carinhanha, Corrente e Grande, principais contribuintes das águas do rio São Francisco na Bahia, responsáveis por até 90% de suas águas no período seco. São elas que abastecem milhares de comunidades rurais e centenas de municípios baianos e dos outros estados do Sub médio e Baixo São Francisco. No entanto, as ações do agronegócio (que age sob a chancela do Estado) têm contribuído para uma das maiores crises hídricas da região.
 
Só para dar um exemplo, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos – INEMA concedeu à Fazenda Igarashi, por meio da Portaria nº 9.159, de 27 de janeiro de 2015, o direito de retirar do rio Arrojado uma vazão de 182.203 m³/dia, durante 14 horas/dia, para a irrigação de 2.539,21 ha. Este volume de água retirada equivale a mais de 106 milhões de litros diários, suficientes para abastecer por dia mais de 6,6 mil cisternas domésticas de 16.000 litros na região do Semiárido. A água consumida pela população de Correntina, aproximadamente 3 milhões de litros por dia, equivale a apenas 2,8% da vazão retirada pela referida fazenda do rio Arrojado.
 
Tendo em vista esse panorama de violação de direitos, a Missão Ecumênica tem como objetivos denunciar o modelo predatório com que as águas da região vêm sendo utilizadas pelo agronegócio e pelas grandes empresas; cobrar que o Estado cumpra com o seu papel na resolução dos conflitos socioambientais, territoriais e hídricos no oeste da Bahia; e anunciar um outro modelo de convivência com o Cerrado, baseado na defesa da água como bem comum, na agroecologia e no respeito aos modos de vida das comunidades tradicionais.
 
PROGRAMAÇÃO
 
 Dia 03 de Outubro – Barreiras (Quinta-feira)
– Audiência Pública na Câmara de Vereadores – 14h
 
Dia 04 de outubro: Saída para visitas às comunidades
– Noite: Lançamento do Livro “Os pivôs da discórdia e a digna raiva: análise dos conflitos por terra, água e territórios em Correntina – Bahia” de Carlos Walter e Samuel Britto.
 
Dia 05 de outubro (Correntina)
– Ato Ecumênico
– Avaliação da Missão
 
MISSÃO ECUMÊNICA – OESTE BAIANO
 
Com realização do Fórum Ecumênico ACT Brasil e sob coordenação da CESE, a Missão Ecumênica pelas Águas dos Cerrados da Bahia no oeste do Estado conta com as seguintes parcerias: Comissão Pastoral da Terra-CPT; Instituto Padre André; Coletivo dos Fundos e Fechos de Pasto do Oeste da Bahia; Associação de Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais – AATR; Pastoral da Juventude do Meio Popular – PJMP; Pastoral do Meio Ambiente – PMA; Agência 10envolvimento; Movimento de Atingidos por Barragem-MAB; Escola Família Agrícola Pe. André – EFAPA; Movimento de Mulheres Unidas na Caminhada-MMUC; Conselho Indigenista Missionário – CIMI; Campanha Nacional em Defesa do Cerrado: Sem Cerrado, Sem Água, Sem Vida; Fundação de Desenvolvimento Integrado do São Francisco-FUNDIFRAN; Associação Ambientalista Corrente Verde; Processo de Articulação e Diálogo-PAD; ACEFARCA, Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA e Ministério Público da Bahia.
 
A ação é apoiada pelas agências internacionais HEKS/EPER; Christian Aid; Brot für die Welt e Misereor.
 
Fonte: CESE
Imagem: Reprodução

 
Em um vídeo gravado para uma recente conferência ambiental Anglicana, o Arcebispo de Canterbury, Justin Welby, transmitiu uma mensagem contundente sobre a importância da Igreja responder às mudanças climáticas.
 
No vídeo, o Arcebispo diz que as mudanças climáticas serão “uma parte central” das discussões da Lambeth Conference em 2020.
 
O tópico é um dos inúmeros assuntos de preocupação global que serão explorados na Conferência de Bispos(as) Anglicanos(as) de Lambeth (Lambeth Conference), a realizar-se no próximo ano em Canterbury.
 
Os comentários do Arcebispo foram feitos em uma mensagem de boa vontade compartilhada com os delegados presentes na conferência MOANA – Water of Life (“MOANA – Água da Vida”) em Lincoln (Reino Unido) no mês passado.
 
Organizada pela Diocese de Lincoln e pela Universidade de Lincoln, a conferência reuniu membros religiosos e da comunidade científica para discutir maneiras de cuidar do meio ambiente. Delegados vindos da Califórnia, Polinésia, Nova Zelândia e Lincoln participaram do evento. Os desafios do aumento do nível do mar e das diminuições no reservatórios de água apresentam sérias implicações em muitos desses locais.
 
No vídeo, o Arcebispo de Canterbury faz referência a um comentário feito durante uma visita oficial a Fiji no ano passado. Na visita, o Arcebispo ouviu o seguinte: ‘Para vocês, europeus, o clima é um problema para o futuro. Para nós, é uma questão de sobrevivência diária’.
 
Fiji, como muitas das ilhas do Pacífico Sul, é um dos menores contribuintes para as emissões globais de carbono, mas enfrenta algumas das consequências mais devastadoras dos eventos climáticos extremos. O país enfrenta ciclones regulares, causando morte, destruição, deslocamento de pessoas e dificuldades econômicas.
 
A conferência MOANA foi aberta por uma delegação da Polinésia, incluindo o Arcebispo-eleito Fereimi Cama. Como parte da Comunhão Anglicana, a Polinésia e a Diocese de Lincoln criaram uma Parceria de Companheirismo, uma iniciativa que promove o diálogo contínuo, a criação de redes e o compartilhamento mútuo de recursos e experiências. Antes da Lambeth Conference, a Diocese de Lincoln receberá uma delegação da Polinésia como parte de uma iniciativa nacional de hospitalidade.
 
Mais tarde, no vídeo, o Arcebispo diz:
 
“Como Cristão, creio nas palavras do Salmo 24. ‘Do Senhor é a terra e a sua plenitude.’ Nós somos os guardiões da criação de Deus. É nosso dever sagrado proteger o mundo natural que recebemos tão generosamente, bem como nossos vizinhos ao redor do mundo que serão os primeiros e os mais afetados.”
 
“Responder às mudanças climáticas é uma parte essencial dessa responsabilidade. Fico constantemente inspirado e encorajado ao ouvir sobre as maneiras apaixonadas, criativas e comprometidas pelas quais indivíduos e igrejas estão vivendo sua fé e respondendo a esse chamado à ação.”
 
“Trabalhando para enfrentar as causas das mudanças climáticas e reduzir seus efeitos. Está acontecendo em toda a nossa Comunhão Anglicana global, e certamente será uma parte central de nossas conversas na Lambeth Conference do ano que vem.”
 
Em toda a Comunhão Anglicana, há uma ampla gama de atividades implementadas para mobilizar as pessoas e responder às mudanças climáticas. Isso inclui, entre outras, iniciativas como os Anglicanos Verdes, a Rede Ambiental da Comunhão Anglicana (ACEN), o grupo Eco-Bispos(as), a presença da Comunhão Anglicana na ONU e o trabalho da Aliança Anglicana.
 
Também foram emitidas resoluções do Conselho Consultivo Anglicano (ACC) sobre o meio ambiente. As medidas aprovadas na ACC-17 em Hong Kong no início deste ano incluíram: reconhecimento da emergência climática global; incentivo para que a Comunhão venha a ‘sustentar e renovar a vida da terra’; promoção de um dia de arrependimento público durante a temporada da criação; desenvolvimento de planos de ação para uma vida sustentável; e realização de conferências de planejamento estratégico com foco nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e as mudanças climáticas. Leia as resoluções na íntegra no site da Comunhão Anglicana.
 
Ainda há muito a ser feito. Neste sentido, as oportunidades oferecidas pela Lambeth Conference serão de grande importância.
 
Fonte: Lambeth Conference
Foto: Reprodução

 
Quando saiu o primeiro “Guia de Luta Contra a Intolerância Religiosa e o Racismo”, em 2009, ninguém imaginou que o problema acabaria de uma hora para outra. Mas ninguém esperava também que discriminar alguém por causa de sua fé virasse algo tão corriqueiro.
 
Pois, se você segue algum credo de matriz afrobrasileira, as chances de ser apedrejado —até literalmente— aumentaram substancialmente em uma década.
 
O lançamento de uma edição atualizada do guia chega num momento em que a CCIR (Comissão de Combate à Intolerância Religiosa) vê mais do que dobrar as denúncias recebidas. 
 
Já são 200 casos registrados até o nono mês de 2019, 35% delas na Baixada Fluminense, contra 92 registrados ao longo do ano passado. Isso sem considerar que a subnotificação desse tipo de preconceito é colossal, alerta a CCIR.
 
As ofensas podem ir de um vizinho xingando um outro, candomblecista, de “macumbeiro” a traficantes evangelizados que vandalizam terreiros e chegam a intimidar pais e mães de santo com armas. Em agosto, alguns deles foram presos. Denominavam-se Bonde de Jesus.
 
Segundo o babalaô Ivanir dos Santos, presidente da comissão, só o Rio tem 200 casas de umbanda e candomblé sob ameaça.
 
No guia, organizado por Ivanir e escrito por Jorge da Silva, há números e relatos sobre vezes em que a religião fez de uma pessoa alvo de um intolerante, mas não só: há ali orientações sobre o que fazer quando isso acontecer, como recorrer ao Ministério Público, pedir a uma autoridade policial uma prisão em flagrante ou pedir ajuda a organizações que vão saber como reagir judicialmente, como o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas.
 
Um episódio de racismo é resgatado para exemplificar como uma ação civil pode render danos morais: o humorista e hoje deputado Tiririca (PR-SP), condenado a dar a entidades de combate à discriminação racial o que arrecadou com “Veja os Cabelos Dela”. A música foi considerada pela Justiça ofensiva à mulher negra, por versos como “veja os cabelos dela/ parece Bombril de ariar panela”.
 
Entre abril de 2012 e dezembro de 2015, 71% das queixas de atentados religiosos partiram de adeptos de religiões afrobrasileiras, e 8%, de evangélicos. 
 
Ivanir diz à Folha que levantamentos prévios de 2018 mostram que, se o primeiro grupo continua na dianteira, católicos assumiram o segundo lugar no ranking dos discriminados. 
 
O babalaô atribui essa medalha de prata ao ataque que seguidores da Santa Sé sofrem por venerarem santos, o que a fé evangélica não admite.
 
O famoso “chute na santa”, quando um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus chutou uma estátua de Nossa Senhora Aparecida (“um bicho tão feio, tão horrível, tão desgraçado”) num programa da Record, é relembrado no livro. 
 
Isso foi em 1995. Os anos seguintes não economizaram em intolerância. Em 2011, houve a pedrada que uma garota de 11 anos vestida de branco levou ao sair de uma festa do candomblé. 
 
Três anos depois, um juiz respondeu assim a um pedido do Ministério Público Federal para retirar do YouTube vídeos com ofensas a umbanda e candomblé: ora, não teria por que falar de intolerância religiosa, já que essas manifestações “não contêm os traços necessários de uma religião”. 
 
Segundo Ivanir, a maioria dos ataques vem de desconhecidos. Em seguida, as denúncias falam em conflitos entre vizinhos de fés distintas. 
 
O ambiente escolar também é um celeiro de intransigência. “O colégio é um espaço de discriminação muito forte, até levando em conta professores neopentecostais” que desrespeitam alunos de credos afrobrasileiros, diz. 
 
O desacato também pode vir de um familiar. “Uma pessoa que se converte e quer destruir o santuário da avó”, exemplifica o babalaô.
 
 
AGRESSÕES
 
As ocorrências mais frequentes no Brasil seriam de evangélicos que não aceitam os cultos importados da África, vistos como algo diabólico.
 
“As agressões verbais têm seguido curioso padrão, reunido em poucos e curtos enunciados: ‘Demônios!, vão arder no inferno!, sai, Satanás!, tá amarrado!’”, diz o guia.
 
Não está na obra, mas o relançamento em 2019 de “Orixás, Guias e Caboclos: Deuses ou Demônios?”, best-seller do bispo Edir Macedo dos anos 1990 esgotado há anos, pôs muitos em alerta. 
 
O líder da Universal diz já na introdução que há tempos ora por aqueles ligados a “práticas de macumbaria e feitiçaria”. Seria um incentivo e tanto à intolerância, inclusive em suas formas violentas, segundo entidades religiosas afrobrasileiras. 
 
A pastora luterana Lusmarina Campos, referência entre a minoria progressista no segmento evangélico, disse à Folha durante a 12ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, no domingo (15/09), em Copacabana, que é “preciso ficar claro que não são todos os evangélicos que pensam dessa maneira”.
 
Para Lusmarina, “faz parte da responsabilidade das igrejas, as que não compactuam, que se pronunciem, que seus líderes tenham coragem de dizer que não é possível continuar silencioso”. 
 
Estamos num país “que avança a rumos perigosos, com uma onda de ódio, fascismo e racismo religioso”, discursa no trio elétrico a makota Celinha Gonçalves. “Não quero que o governo reze, exijo que nos deixe rezar”, diz ela, coordenadora nacional do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira, na passeata. Seu título religioso, makota, vem do candomblé de tradição angolana e é dado para zeladoras de orixás.
 
Jorge da Silva, por sua vez, minimiza o receio de que a era Jair Bolsonaro, na qual líderes e políticos evangélicos têm uma influência ímpar até aqui, colaboraria para o terrorismo religioso. 
 
“Não se pode atribuir o acirramento da intolerância ao atual governo. Esta é uma mazela secular de nossa sociedade, desde os tempos de colônia, sempre negada enquanto praticada”, diz. “A diferença é que os grupos discriminados passaram a exigir seus direitos, o que tem causado cada vez mais ‘reação’.”
 
Membros de religiões afrobrasileiras eram maioria na orla de Copacabana, mas a cena era ecumênica e contemplava de budistas a pagãos da wicca. A caminhada incluiu até grupos não necessariamente ali pela religião, como ciganos e escoteiros. 
 
A bruxa Alana Morgana, que lidera uma trupe wiccana em São João do Meriti (RJ), afirmou à reportagem que foi alvo de um grupo neopentecostal meses atrás. Foi gravada fazendo um ritual numa encruzilhada de sua cidade e, após as imagens viralizarem, sofrido ameaças de morte, diz.
 
“Traficantes de Jesus diziam que iam me matar. Fiquei dois meses em cárcere privado, sem poder sair de casa. Diziam que eu assassinava crianças.”
 
“Quero terminar pedindo perdão”, afirmou em sua vez no trio o padre italiano Renato Chiera. “Tem gente usando Bíblia e nome de Deus para difundir intolerância. Quem odeia é o diabo. Quem faz isso não é de Deus.”
 
Da Arquidiocese de Nova Iguaçu (RJ), Chiera disse acreditar “num Deus que é pai de todos, não de um grupo só. Não entenderam que é tempo de acolher todo mundo”.
 
No começo, com o quórum do ato ainda esvaziado, os discursos pela paz entre todos os credos dividiram espaço com outro trio elétrico vizinho: um “pipódromo” do movimento Pipa, Paixão Nacional. Pipas, inclusive algumas com a imagem de Jesus Cristo, nas mãos dos participantes.
 
Jorge e Ivanir esperam não precisar reeditar uma nova versão do roteiro sobre a intolerância religiosa em 2029. Que os deuses, sejam quais forem que uma pessoa acredita, os ouçam.
 
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Guia de Luta Contra a Intolerância Religiosa e o Racismo
 
Autor: Jorge da Silva, org. Centro de Articulação de Populações Marginalizadas e babalaô Ivanir dos Santos, 66 págs. Gratuito. 
Para solicitar PDF ou versão impressa: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
 
Foto: TV Globo