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Em um vídeo gravado para uma recente conferência ambiental Anglicana, o Arcebispo de Canterbury, Justin Welby, transmitiu uma mensagem contundente sobre a importância da Igreja responder às mudanças climáticas.
 
No vídeo, o Arcebispo diz que as mudanças climáticas serão “uma parte central” das discussões da Lambeth Conference em 2020.
 
O tópico é um dos inúmeros assuntos de preocupação global que serão explorados na Conferência de Bispos(as) Anglicanos(as) de Lambeth (Lambeth Conference), a realizar-se no próximo ano em Canterbury.
 
Os comentários do Arcebispo foram feitos em uma mensagem de boa vontade compartilhada com os delegados presentes na conferência MOANA – Water of Life (“MOANA – Água da Vida”) em Lincoln (Reino Unido) no mês passado.
 
Organizada pela Diocese de Lincoln e pela Universidade de Lincoln, a conferência reuniu membros religiosos e da comunidade científica para discutir maneiras de cuidar do meio ambiente. Delegados vindos da Califórnia, Polinésia, Nova Zelândia e Lincoln participaram do evento. Os desafios do aumento do nível do mar e das diminuições no reservatórios de água apresentam sérias implicações em muitos desses locais.
 
No vídeo, o Arcebispo de Canterbury faz referência a um comentário feito durante uma visita oficial a Fiji no ano passado. Na visita, o Arcebispo ouviu o seguinte: ‘Para vocês, europeus, o clima é um problema para o futuro. Para nós, é uma questão de sobrevivência diária’.
 
Fiji, como muitas das ilhas do Pacífico Sul, é um dos menores contribuintes para as emissões globais de carbono, mas enfrenta algumas das consequências mais devastadoras dos eventos climáticos extremos. O país enfrenta ciclones regulares, causando morte, destruição, deslocamento de pessoas e dificuldades econômicas.
 
A conferência MOANA foi aberta por uma delegação da Polinésia, incluindo o Arcebispo-eleito Fereimi Cama. Como parte da Comunhão Anglicana, a Polinésia e a Diocese de Lincoln criaram uma Parceria de Companheirismo, uma iniciativa que promove o diálogo contínuo, a criação de redes e o compartilhamento mútuo de recursos e experiências. Antes da Lambeth Conference, a Diocese de Lincoln receberá uma delegação da Polinésia como parte de uma iniciativa nacional de hospitalidade.
 
Mais tarde, no vídeo, o Arcebispo diz:
 
“Como Cristão, creio nas palavras do Salmo 24. ‘Do Senhor é a terra e a sua plenitude.’ Nós somos os guardiões da criação de Deus. É nosso dever sagrado proteger o mundo natural que recebemos tão generosamente, bem como nossos vizinhos ao redor do mundo que serão os primeiros e os mais afetados.”
 
“Responder às mudanças climáticas é uma parte essencial dessa responsabilidade. Fico constantemente inspirado e encorajado ao ouvir sobre as maneiras apaixonadas, criativas e comprometidas pelas quais indivíduos e igrejas estão vivendo sua fé e respondendo a esse chamado à ação.”
 
“Trabalhando para enfrentar as causas das mudanças climáticas e reduzir seus efeitos. Está acontecendo em toda a nossa Comunhão Anglicana global, e certamente será uma parte central de nossas conversas na Lambeth Conference do ano que vem.”
 
Em toda a Comunhão Anglicana, há uma ampla gama de atividades implementadas para mobilizar as pessoas e responder às mudanças climáticas. Isso inclui, entre outras, iniciativas como os Anglicanos Verdes, a Rede Ambiental da Comunhão Anglicana (ACEN), o grupo Eco-Bispos(as), a presença da Comunhão Anglicana na ONU e o trabalho da Aliança Anglicana.
 
Também foram emitidas resoluções do Conselho Consultivo Anglicano (ACC) sobre o meio ambiente. As medidas aprovadas na ACC-17 em Hong Kong no início deste ano incluíram: reconhecimento da emergência climática global; incentivo para que a Comunhão venha a ‘sustentar e renovar a vida da terra’; promoção de um dia de arrependimento público durante a temporada da criação; desenvolvimento de planos de ação para uma vida sustentável; e realização de conferências de planejamento estratégico com foco nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e as mudanças climáticas. Leia as resoluções na íntegra no site da Comunhão Anglicana.
 
Ainda há muito a ser feito. Neste sentido, as oportunidades oferecidas pela Lambeth Conference serão de grande importância.
 
Fonte: Lambeth Conference
Foto: Reprodução

 
Quando saiu o primeiro “Guia de Luta Contra a Intolerância Religiosa e o Racismo”, em 2009, ninguém imaginou que o problema acabaria de uma hora para outra. Mas ninguém esperava também que discriminar alguém por causa de sua fé virasse algo tão corriqueiro.
 
Pois, se você segue algum credo de matriz afrobrasileira, as chances de ser apedrejado —até literalmente— aumentaram substancialmente em uma década.
 
O lançamento de uma edição atualizada do guia chega num momento em que a CCIR (Comissão de Combate à Intolerância Religiosa) vê mais do que dobrar as denúncias recebidas. 
 
Já são 200 casos registrados até o nono mês de 2019, 35% delas na Baixada Fluminense, contra 92 registrados ao longo do ano passado. Isso sem considerar que a subnotificação desse tipo de preconceito é colossal, alerta a CCIR.
 
As ofensas podem ir de um vizinho xingando um outro, candomblecista, de “macumbeiro” a traficantes evangelizados que vandalizam terreiros e chegam a intimidar pais e mães de santo com armas. Em agosto, alguns deles foram presos. Denominavam-se Bonde de Jesus.
 
Segundo o babalaô Ivanir dos Santos, presidente da comissão, só o Rio tem 200 casas de umbanda e candomblé sob ameaça.
 
No guia, organizado por Ivanir e escrito por Jorge da Silva, há números e relatos sobre vezes em que a religião fez de uma pessoa alvo de um intolerante, mas não só: há ali orientações sobre o que fazer quando isso acontecer, como recorrer ao Ministério Público, pedir a uma autoridade policial uma prisão em flagrante ou pedir ajuda a organizações que vão saber como reagir judicialmente, como o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas.
 
Um episódio de racismo é resgatado para exemplificar como uma ação civil pode render danos morais: o humorista e hoje deputado Tiririca (PR-SP), condenado a dar a entidades de combate à discriminação racial o que arrecadou com “Veja os Cabelos Dela”. A música foi considerada pela Justiça ofensiva à mulher negra, por versos como “veja os cabelos dela/ parece Bombril de ariar panela”.
 
Entre abril de 2012 e dezembro de 2015, 71% das queixas de atentados religiosos partiram de adeptos de religiões afrobrasileiras, e 8%, de evangélicos. 
 
Ivanir diz à Folha que levantamentos prévios de 2018 mostram que, se o primeiro grupo continua na dianteira, católicos assumiram o segundo lugar no ranking dos discriminados. 
 
O babalaô atribui essa medalha de prata ao ataque que seguidores da Santa Sé sofrem por venerarem santos, o que a fé evangélica não admite.
 
O famoso “chute na santa”, quando um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus chutou uma estátua de Nossa Senhora Aparecida (“um bicho tão feio, tão horrível, tão desgraçado”) num programa da Record, é relembrado no livro. 
 
Isso foi em 1995. Os anos seguintes não economizaram em intolerância. Em 2011, houve a pedrada que uma garota de 11 anos vestida de branco levou ao sair de uma festa do candomblé. 
 
Três anos depois, um juiz respondeu assim a um pedido do Ministério Público Federal para retirar do YouTube vídeos com ofensas a umbanda e candomblé: ora, não teria por que falar de intolerância religiosa, já que essas manifestações “não contêm os traços necessários de uma religião”. 
 
Segundo Ivanir, a maioria dos ataques vem de desconhecidos. Em seguida, as denúncias falam em conflitos entre vizinhos de fés distintas. 
 
O ambiente escolar também é um celeiro de intransigência. “O colégio é um espaço de discriminação muito forte, até levando em conta professores neopentecostais” que desrespeitam alunos de credos afrobrasileiros, diz. 
 
O desacato também pode vir de um familiar. “Uma pessoa que se converte e quer destruir o santuário da avó”, exemplifica o babalaô.
 
 
AGRESSÕES
 
As ocorrências mais frequentes no Brasil seriam de evangélicos que não aceitam os cultos importados da África, vistos como algo diabólico.
 
“As agressões verbais têm seguido curioso padrão, reunido em poucos e curtos enunciados: ‘Demônios!, vão arder no inferno!, sai, Satanás!, tá amarrado!’”, diz o guia.
 
Não está na obra, mas o relançamento em 2019 de “Orixás, Guias e Caboclos: Deuses ou Demônios?”, best-seller do bispo Edir Macedo dos anos 1990 esgotado há anos, pôs muitos em alerta. 
 
O líder da Universal diz já na introdução que há tempos ora por aqueles ligados a “práticas de macumbaria e feitiçaria”. Seria um incentivo e tanto à intolerância, inclusive em suas formas violentas, segundo entidades religiosas afrobrasileiras. 
 
A pastora luterana Lusmarina Campos, referência entre a minoria progressista no segmento evangélico, disse à Folha durante a 12ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, no domingo (15/09), em Copacabana, que é “preciso ficar claro que não são todos os evangélicos que pensam dessa maneira”.
 
Para Lusmarina, “faz parte da responsabilidade das igrejas, as que não compactuam, que se pronunciem, que seus líderes tenham coragem de dizer que não é possível continuar silencioso”. 
 
Estamos num país “que avança a rumos perigosos, com uma onda de ódio, fascismo e racismo religioso”, discursa no trio elétrico a makota Celinha Gonçalves. “Não quero que o governo reze, exijo que nos deixe rezar”, diz ela, coordenadora nacional do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira, na passeata. Seu título religioso, makota, vem do candomblé de tradição angolana e é dado para zeladoras de orixás.
 
Jorge da Silva, por sua vez, minimiza o receio de que a era Jair Bolsonaro, na qual líderes e políticos evangélicos têm uma influência ímpar até aqui, colaboraria para o terrorismo religioso. 
 
“Não se pode atribuir o acirramento da intolerância ao atual governo. Esta é uma mazela secular de nossa sociedade, desde os tempos de colônia, sempre negada enquanto praticada”, diz. “A diferença é que os grupos discriminados passaram a exigir seus direitos, o que tem causado cada vez mais ‘reação’.”
 
Membros de religiões afrobrasileiras eram maioria na orla de Copacabana, mas a cena era ecumênica e contemplava de budistas a pagãos da wicca. A caminhada incluiu até grupos não necessariamente ali pela religião, como ciganos e escoteiros. 
 
A bruxa Alana Morgana, que lidera uma trupe wiccana em São João do Meriti (RJ), afirmou à reportagem que foi alvo de um grupo neopentecostal meses atrás. Foi gravada fazendo um ritual numa encruzilhada de sua cidade e, após as imagens viralizarem, sofrido ameaças de morte, diz.
 
“Traficantes de Jesus diziam que iam me matar. Fiquei dois meses em cárcere privado, sem poder sair de casa. Diziam que eu assassinava crianças.”
 
“Quero terminar pedindo perdão”, afirmou em sua vez no trio o padre italiano Renato Chiera. “Tem gente usando Bíblia e nome de Deus para difundir intolerância. Quem odeia é o diabo. Quem faz isso não é de Deus.”
 
Da Arquidiocese de Nova Iguaçu (RJ), Chiera disse acreditar “num Deus que é pai de todos, não de um grupo só. Não entenderam que é tempo de acolher todo mundo”.
 
No começo, com o quórum do ato ainda esvaziado, os discursos pela paz entre todos os credos dividiram espaço com outro trio elétrico vizinho: um “pipódromo” do movimento Pipa, Paixão Nacional. Pipas, inclusive algumas com a imagem de Jesus Cristo, nas mãos dos participantes.
 
Jorge e Ivanir esperam não precisar reeditar uma nova versão do roteiro sobre a intolerância religiosa em 2029. Que os deuses, sejam quais forem que uma pessoa acredita, os ouçam.
 
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Guia de Luta Contra a Intolerância Religiosa e o Racismo
 
Autor: Jorge da Silva, org. Centro de Articulação de Populações Marginalizadas e babalaô Ivanir dos Santos, 66 págs. Gratuito. 
Para solicitar PDF ou versão impressa: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
 
Foto: TV Globo
 

 
A Comissão Justiça e Paz de Brasília publicou uma nota em solidariedade com o assassinato do Padre Kazimierz Wojno (Padre Casimiro), em Brasília, na noite de sábado, 21 de setembro. Padre Casimiro foi brutalmente assassinado por criminosos que roubaram a paróquia. A polícia trabalha com hipótese de latrocínio. 
 
Eis a nota.
 
A misericórdia é o critério para entender o agir cristão.
Ser cristão é “deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança:
não se ponha o sol sobre vossa ira (Ef 4, 26). Misericordiae Vultus, n. 9.
 
A notícia do assassinato brutal do Padre Kazimierz Wojno (Padre Casimiro), durante assalto a igreja na Asa Norte N. S. da Saúde 702 Brasília, na noite deste sábado (21/09/2019), com requintes de crueldade (foi espancado, amarrado e estrangulado com um arame farpado enrolado no pescoço) horroriza, não só pelo ato em si que pode alcançar qualquer pessoa. Mas porque revela uma sociedade conturbada, angustiada pela crescente desigualdade que a deixa desorientada em suas referências éticas e na possibilidade de respostas confiáveis no exercício oficial do sistema de segurança e justiça, nos dias em curso, também promotora de práticas violentas e redutoras da dignidade humana, das quais nem crianças são poupadas.
 
A morte do padre Casimiro choca pelo contraste entre a sua vida de doação à causa da misericórdia e da promoção da paz. O religioso havia celebrado uma missa no início da noite de sábado, às 18h30. Morreu no serviço de Deus e da partilha pastoral. Por isso, mais que deblaterar contra as causas de sua morte e de se deixar arrastar pelo ressentimento, pela raiva, pedindo mais violência e vingança, o infausto acontecimento nos convoca a refletir sobre o sentido de ser cristão em tempos tão conturbados.
 
Precisamos lembrar que a violência que permeia as condições agônicas dos tempos que estamos vivendo, sim exige de nós termos melhor compreensão de suas raízes, dos fatores que a induzem, da propagação que muitas vezes a espetacularizam, no plano institucional e no plano societal, não é só resultado de exercícios de forças bélicas, de ódios, desigualdades e intolerâncias, de injustiças, de corrupção dos costumes e das políticas públicas, mas é também consequência de fragilidades aninhadas em nossos corações e em nosso modo de orientar a nossa ação no serviço da misericórdia.
 
Este trágico acontecimento pode ser um sacrifício para despertar em nós, cristãos e todos que tenham boa vontade, a lição do Monte: “Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: ‘Não matarás’, e ‘quem matar estará sujeito a julgamento’. Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qualquer quem disser a seu irmão: ‘Racá’ [“Você não vale nada”], será levado ao tribunal. E qualquer que disser: ‘Louco!’ [“idiota”], corre o risco de ir para o fogo do inferno” (Mt 5:21-22).
 
A perda do padre Casimiro, sob a condição de martírio, traz a nossa reflexão o ensinamento de Jesus para a legítima atitude contra a violência: “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” (Mt 5:9). Porque, como ensina Tiago (Ep.), precisamos plantar a justiça para criar a paz: “O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores!”.
 
A Comissão Justiça e Paz de Brasília, no seu mandato pastoral, se solidariza com a família do padre Casimiro, com seus paroquianos, com a grande fraternidade que forma a nossa assembleia arquidiocesana. Responde a esse clamor que a sua morte lança para o labor da pacificação, na sociabilidade e na cordialidade, e se compromete mais ainda com a causa da misericórdia.
 
Padre Casimiro é semente, ele permanece entre nós, seu ministério, seus valores, seu serviço pastoral. Como semente renasce, frutifica como exemplo, nos ensina a ser cristãos em tempos conturbados.
 
Por Comissão Justiça e Paz de Brasília,
22 de setembro de 2019.

 
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitiu, na tarde desta quinta-feira, 19, uma nota sobre o enfraquecimento da participação da sociedade civil brasileira nos conselhos paritários, legítimos espaços de participação e controle social das políticas públicas.
 
Confira:
 
Nota sobre os Conselhos Paritários
 
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) acompanha, com apreensão, a postura que o Executivo Federal vem adotando em relação aos conselhos paritários, legítimos organismos de participação popular na gestão da sociedade brasileira.
 
A recente publicação do Decreto nº 10.003/19, que altera procedimentos no Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA), explicita esse modus operandi. A medida, de maneira abrupta, destituiu os conselheiros da sociedade civil, legitimamente eleitos e no exercício do mandato vigente. Além disso, violou o princípio da democracia participativa, oriundo da Constituição Federal, demonstrando uma equivocada compreensão dessa questão.
 
O governo não pode agir sozinho. A sociedade civil tem que participar. Não se pode desmontar as estruturas de participação social que exercem papel fundamental para nossa nação. Os clamores do povo, suas necessidades e a sensibilidade social, vêm exatamente dessa participação e impactam a formulação das políticas públicas.
 
Os bispos do Brasil exortam todos os conselheiros e conselheiras ligados às diversas instâncias governamentais do nosso país, a manterem a esperança. Acreditando na força do diálogo, esperam a revisão do decreto 10.003/19, bem como da postura em relação aos conselhos paritários. A cidadania e a democracia participativa contribuem para a construção de uma nação mais justa, fraterna, solidária e democrática.
 
Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, continue intercedendo pelo nosso país.
 
Brasília-DF, 19 de setembro de 2019
 
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte – MG
Presidente da CNBB
 
Dom Jaime Spengler
Arcebispo de Porto Alegre – RS
1º Vice-Presidente da CNBB
 
Dom Mário Antônio da Silva
Bispo de Roraima – RR
2º Vice-Presidente da CNBB
 
Dom Joel Portella Amado
Bispo Auxiliar de S. Sebastião do Rio de Janeiro – RJ
Secretário-Geral da CNBB

 
Por Josias de Souza*
 
Wilson Witzel teve um domingo assombrosamente normal. Plugou-se às redes sociais antes do nascer do Sol. Às 5h, postou um "parabéns" à cidade de São Gonçalo, que faz aniversário de 129 anos. Celebrou o Dia Mundial Sem Carro. "Eu apoio essa iniciativa por um mundo sem poluição." E pendurou nas redes uma foto na qual aparece de costas ao lado de sua caçula. "Minha filha, Beatriz, faz hoje a prova de ingresso para o Colégio Militar", anotou na legenda.
 
Beatriz Witzel, 11, é apenas três anos mais velha do que Ágatha Félix, 8, a menina que foi morta por um tiro de fuzil, quando estava com sua mãe numa Kombi, durante operação policial no Complexo do Alemão. Executada na noite de sexta-feira, Ágatha foi sepultada neste domingo. Embora já fossem decorridos quase três dias da tragédia, o governador fluminense manteve em relação ao tema um silêncio tumular.
 
Por uma trapaça do destino, Ágatha foi conduzida à cova por sua família no mesmo dia em que o pai de Beatriz levou-a para a escola. Produziu-se um incômodo contraste entre o domingo normal de Witzel e a anormalidade decorrente da política de segurança baseada no lema do "tiro na cabecinha". A execução de mais uma alma inocente, de fulgurante jovialidade, é um acontecimento do tipo que fere a rotina como uma lâmina fria, fazendo o cotidiano escapar do controle.
 
Ignore-se por um instante o tiro que matou Ágatha, e fixe-se a atenção no que aconteceu antes e depois do disparo. Antes, Witzel consolidou-se como narrador de uma nova era. Disse coisas assim: "A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo!" Ou assim: "Cova, a gente cava." Ou ainda: "Criminosos serão combatidos e caçados nas comunidades." Depois, o silêncio.
 
Banalizou-se o noticiário sobre policiais entrando em bairros onde moram pessoas pobres, confrontando-se com bandidos e matando "suspeitos". Em três casos extremos, abateram-se, por exemplo, suspeitos de portar armas e drogas. Um carregava uma furadeira. Outro, um guarda-chuva. Um terceiro levava na mochila um par de chuteiras, uma sandália de dedo e R$ 85,00. Tudo isso antes do tiro que transfixou o corpo de Ágatha. Depois, o silêncio de Witzel.
 
Pode-se imaginar que o governador não tenha perdido a loquacidade no ambiente familiar. Cercada de guarda-costas, Beatriz chegou da escola. E o pai-governador decerto perguntou: "Como foi a prova, minha querida?" A menina talvez tenha respondido: "Acho que fui bem, papai". Esse é um tipo de diálogo banal que os familiares de Ágatha jamais poderão travar.
 
Se a normalidade reinante no cotidiano de Wilson Witzel tem alguma serventia é para demonstrar que algo de muito anormal precisa acontecer no Rio de Janeiro e no Brasil.
 
*Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército". 
 
Fonte: Uol
Foto: Reprodução das Redes Sociais

 
Em 2021 teremos mais uma edição da Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE). 
 
Na última reunião da diretoria do CONIC, realizada no dia 4 de setembro, lideranças da CNBB, junto com o secretário-geral dom Joel Portella, e o bispo de Cornélio Procópio (PR) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo, dom Manoel João Francisco, foram até o CONIC como gesto simbólico de início do processo de preparação da CFE.
 
O atual contexto, caracterizado pela banalização da violência, por intolerância religiosa e pelo racismo foi centro da conversa sobre o que as igrejas gostariam de abordar na CFE. 
 
A partir da análise do contexto, compreendeu-se que um desafio colocado para as igrejas no Brasil é ampliar a discussão e proposição de ações a partir do documento do CMI, Educação para a paz em um Mundo Multirreligioso
 
No entanto, gostaríamos de ouvir e conhecer as expectativas de vocês em relação a temas da CFE.
 
Por isso lançamos um processo de consulta que vai até 19 de outubro com igrejas, organismos ecumênicos, grupos de base, movimentos sociais sobre possíveis temas para a Campanha.
 
Se você acha que Educação para a paz e o diálogo é um tema importante, manifeste-se.
 
Caso considere que há outros temas que deveriam ser abordados, sugira.
 
A consulta prevê também sugestões de textos bíblicos para o LEMA da CFE.
 
Participe! Sua criatividade e opinião são muito importantes para nós.
 
Para enviar sua sugestão, basta encaminhar um e-mail para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.  (você receberá um e-mail de confirmação) 

 
O papa Francisco recebeu, na manhã do último domingo, 15 de setembro, na Casa Santa Marta, uma delegação da Fundação de direito Pontifício “Ajuda à Igreja que Sofre” (AIS), guiada pelo cardeal Mauro Piacenza, presidente internacional da entidade.
 
Na oportunidade, Francisco abençoou o ícone da “Virgem das Dores, consoladora dos Sírios”, criado por um artista greco-ortodoxo, por ocasião da campanha de oração “Consola meu povo”. No ícone, aparecem os dois arcebispos sírios sequestrados pelo Estado Islâmico em 2013, dom Gregorios Yohanna Ibrahim (Igreja Sírian Ortodoxa) e dom Paul Yazigi (Igreja Greco Ortodoxa).
 
Em 15 de agosto, o papa já havia demonstrado apoio à iniciativa (Consola meu povo), convidando excepcionalmente o diretor executivo internacional da AIS, Thomas Heine-Geldern, a aparecer na janela de seu escritório ao final do Angelus, para a bênção dos Rosários.
 
Um povo em oração
 
Esses rosários, feitos pelos artesãos cristãos de Belém e Damasco, foram distribuídos nas paróquias de todas as 34 dioceses sírias, tanto católicas como ortodoxas.
 
Além dos rosários, também foram distribuídas Bíblias em árabe, doadas pela AIS, e cruzes de madeira de oliveiras da Terra Santa, abençoadas pelo patriarca Mor Ignatius Aphrem II, da Igreja Sírian Ortodoxa.
 
Ecumenismo prático
 
Iniciativas como as que foram citadas acima demonstram um ecumenismo prático entre igrejas-irmãs que, unidas, ajudam a fortalecer a fé daqueles e daquelas que sofrem os traumas da guerra. #UnidadeNaDiversidade 
 
CONIC com agências
Foto: Reprodução

 
Por Rowan Williams*
 
É difícil compreender a escala da devastação provocada pelos incêndios que ainda assolam a Amazônia. Essa é uma floresta tropical que fornece um quinto do oxigênio do planeta. É difícil não sentir impotência e desespero diante do desastre que está acometendo a região.
 
Mas, por mais forte – e amargo – que seja o sentimento diante dessa catástrofe ambiental, não devemos jamais perder de vista o fato de que se trata, também, de uma tragédia humana.
 
Precisamos ouvir com atenção redobrada as vozes daquelas pessoas que chamam a floresta de lar – vozes, muitas vezes, deixadas de lado ou deliberadamente silenciadas, com histórias que figuram apenas na nota de rodapé das notícias nos meios internacionais. Não há desculpa para não escutá-las agora.
 
A preocupação com a sobrevivência e o bem-estar dessas comunidades deve vir antes da ânsia por “desenvolvimento” que só serve a uma sanha por consumo e conveniência. O fato de, aparentemente, isso não ser uma prioridade moral óbvia deveria nos encher de vergonha.
 
Há gerações, os povos indígenas da bacia amazônica são os guardiões das florestas. Alguns já pagaram por isso com a própria vida, literalmente, muito antes dos incêndios desta temporada de seca. Essas comunidades enfrentaram anos de ataques, invasões ilegais e desmatamento. Seus direitos foram ignorados diante da ganância de diferentes interesses econômicos, e suas histórias são um relato sobre a absoluta desigualdade econômica que contamina e corrompe tanto o nosso mundo, incluindo países como o Brasil.
 
A América Latina tem a mais alta concentração de terras do mundo. Apenas 1% dos proprietários de terras controlam metade da terra agricultável. Na Amazônia, a mineração e a exploração do petróleo estão expulsando comunidades da floresta onde elas vivem há séculos.
 
Existem cerca de 3 mil comunidades quilombolas, formadas por descendentes de pessoas escravizadas que fugiam, entre aquelas que mais sofrem com os interesses das grandes empresas. Poucas dessas comunidades conquistaram o reconhecimento e a posse clara da terra onde vivem. Aquelas que não conseguiram enfrentam a força total das políticas de desenvolvimento econômico do atual governo brasileiro, que incentiva ativamente a extração de madeira e a mineração em terras quilombolas.
 
Esse problema não é só do Brasil – nem só dos outros países amazônicos, como Bolívia e Colômbia, que também vêm sofrendo o impacto dos incêndios e da devastação ambiental. Todos nós temos responsabilidade sobre isso. Os padrões globais de crescimento econômico, incluindo os níveis inéditos de demanda por carne no mundo desenvolvido, representam muito da pressão sobre o uso da terra na região. E, com o desmatamento generalizado em outras partes do mundo, ficamos mais dependentes que nunca da região para garantir nosso equilíbrio ecológico global.
 
Os incêndios que estão assolando a Amazônia são uma metáfora visível para o efeito da nossa paixão desenfreada por um crescimento econômico ilimitado. É essa paixão que levou a grande parte do desmatamento registrado nos últimos anos. É a isso que se deve a maioria esmagadora dos incêndios que hoje acontecem na região. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil divulgou dados que mostram um aumento de 278%** no desmatamento em julho deste ano em comparação com o mesmo mês do ano passado.
 
Parece cada vez mais provável que tenhamos atingido ou estejamos próximos de atingir um ponto crítico irreversível na crise ecológica global, uma crise gerada pelo desejo de maximizar, indefinidamente, o que podemos extrair do nosso meio ambiente, como se ele não fosse nada mais que um armário de despensa a ser saqueado. O poeta canadense Robert Bringhurst escreve que o complexo mundo “selvagem” e indomado ao nosso redor “não é um portfólio de recursos para nós ou para nossa espécie comprar e vender ou administrar ou desperdiçar a nosso bel-prazer. A natureza selvagem é a Terra vivendo a própria vida em plenitude”.
 
A compulsão por consumo que leva a esse prejuízo extremo que estamos vendo nos desumaniza e destrói nosso meio ambiente. O incêndio também atinge nossa alma.
 
A beleza de pertencer a um mundo que nos nutre é a solidariedade que podemos desfrutar com outros seres vivos e também entre nós, como seres humanos.
 
A partir desse senso de solidariedade, a Christian Aid – cujo conselho presido – se uniu a outras mais de 100 organizações religiosas para declarar apoio ao Sínodo dos Bispos para a Amazônia, que deve se reunir em Roma no próximo mês. Essa declaração, “Somos la Amazonia” (“Somos a Amazônia”), expressa o apoio pela visão do sínodo e delineia um caminho de ação para proteger tanto a floresta quanto as comunidades indígenas e ativistas de direitos humanos que arriscam a própria vida para preservar seu habitat.
 
O primeiro-ministro [britânico, Boris Johnson] vem pedindo “mais ambição” no tratamento à crise climática e à perda de biodiversidade. Aceitamos a palavra dele: a Christian Aid lançou uma petição exigindo que ele e outros líderes globais enfrentem a pobreza e a desigualdade que alimentaram a crise ambiental. É hora de mostrar solidariedade às comunidades que vivem na linha de frente dessa crise, na Amazônia e no mundo.
 
*Artigo originalmente publicado no The Guardian 
Dr. Rowan Williams é ex-arcebispo de Canterbury
e presidente do Conselho da Christian Aid
 
**Os últimos dados sobre desmatamento divulgados pelo Inpe
revelam um aumento ainda maior no mês de agosto de 2019
 
Fonte: Brasil de Fato
Foto: João Laet/AFP
 

 
Romi Márcia Bencke nasceu com uma vocação. A menina gaúcha descendente de alemães já sabia que em seu futuro a religião ocuparia um papel maior do que o representado pelas idas aos cultos da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Igreja esta que, como a família de Romi, veio ao Brasil por meio da migração alemã e se estabeleceu no sul do país.
 
Quando pequena, Romi certa vez perguntou ao pastor se mulheres também poderiam ser pastoras. Ao ouvir uma resposta afirmativa, ela decidiu: “então é isso que eu vou ser”. Aos 14 anos, Romi foi estudar em um internato da igreja em Ivoti, Rio Grande do Sul, para seguir o sonho que não era mais apenas dela, e sim de toda a comunidade que a abraçou. Lá, fez o curso de tradução, intérprete e pré-teológico, que era uma preparação para a faculdade de teologia. Ao terminar o curso, no entanto, mudou de planos e resolveu voltar para casa. “Eu decidi que eu não tinha maturidade, não me sentia preparada para ir para a teologia, aí eu voltei para casa, frustrando minha família e também a comunidade de fé”, diz.
 
Depois de pouco mais de dois anos trabalhando como professora em um colégio, sua vocação voltou a chamá-la e ela decidiu finalmente cursar teologia. Na Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, Romi entrou em contato não apenas com o estudo das diferentes religiões, mas com o papel social exercido por elas e pelas igrejas.
 
A partir do contato com a teologia da libertação, ela começou a se envolver em ações sociais e usou sua vocação para um propósito ainda maior: a defesa dos direitos humanos. O lema “unidade na diversidade”, repetido sempre que possível, não é apenas uma frase de efeito, mas um guia para sua atuação em um meio que, talvez contraditoriamente, é muitas vezes marcado por conflitos.
 
Na faculdade, no início dos anos 1990, Romi e seus colegas colocaram em prática a ideia de ação social e criaram um grupo de apoio às pessoas soropositivas da cidade de São Leopoldo. Na época, as informações sobre o HIV e a aids ainda eram muito incipientes no Brasil e, por isso, conta ela, “na igreja, o pessoal ficou maluco, porque é óbvio que tinha muito preconceito. Quando ficaram sabendo que tinha estudantes de teologia fazendo esse tipo de intervenção, teve muita reclamação, mas a gente encarou a briga”. A experiência que marcou sua vida também a apresentou a outras realidades como a das trabalhadoras do sexo e a discussão sobre sexualidade, que naquela época ainda era muito limitada.
 
Depois de formada, Romi estudou e trabalhou com o ecumenismo, tentando encontrar formas de unir as diferentes religiões em prol de um bem comum. Unidade na diversidade. Por sete anos, a questão ecumênica foi tratada diretamente com a comunidade por meio de sua atuação como pastora da igreja luterana em uma paróquia no interior do Rio Grande do Sul, até que ela foi escolhida a primeira mulher a assumir a Secretaria-Geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC).
 
Talvez ela não soubesse, mas a pergunta que fez ao pastor quando jovem já demonstrava que ela possuía também uma outra vocação: a luta pelos direitos das mulheres. Romi não permitiu que o fato de ser mulher se colocasse como um empecilho para se tornar pastora ou atrapalhasse seu trabalho a favor de uma religiosidade mais tolerante.
 
A formação feminista faz com que hoje ela critique os valores patriarcais presentes nas relações de poder na sociedade brasileira e defenda discussões de gênero tanto nas escolas quanto nas igrejas. “As mulheres têm a sua dignidade, têm os seus direitos, e grupo religioso nenhum, seja ele qual for, pode negar a dignidade, a autonomia e o acesso aos direitos das mulheres”, defende.
 
Atualmente, são duas as linhas de atuação do CONIC: a promoção da vivência da comunhão e da espiritualidade ecumênica e inter-religiosa e a presença pública em diálogos sobre valores que fundamentam a perspectiva de equidade.
 
Romi ressalta que o primeiro ponto é fundamental porque hoje em dia vivemos em um contexto de muito fundamentalismo religioso, e a perspectiva ecumênica é necessária para que se difunda a ideia de que “religião não é para promover o ódio, nem pra dividir”. “A religião pode fortalecer valores que priorizem a construção de uma cultura de paz, de tolerância, de menos ódio, de mais aceitação mútua e assim por diante”, explica a pastora.
 
Diversidade
 
Mas o segundo pilar ganha destaque porque foi principalmente em função dele que o CONIC começou a atuar na questão da migração. Com o intenso fluxo de migrantes haitianos vindo para o Brasil a partir de 2010, o Conselho decidiu que era importante seu envolvimento no assunto, uma vez que esse é um tema tão caro às igrejas cristãs, já que se mistura até mesmo com a história de Jesus.
 
Em 2015, surgiu um projeto-piloto intitulado “Imigrantes e Refugiados: Desafios da Casa Comum”, no qual, mais uma vez, foi necessário olhar para dentro, para a religião em si. Em vez de oferecer assistência às pessoas que chegavam aqui – por considerar que o CONIC não tem o conhecimento necessário –, o Conselho escolheu trabalhar a aceitação e o acolhimento dos migrantes com comunidades religiosas para lutar contra o preconceito.
 
“Com isso, a gente colocou outros pontos que o tema da migração e do refúgio trazem. Por exemplo, a interculturalidade, a xenofobia, a inter-religiosidade, porque cada migrante vem com a sua experiência religiosa ou não, então a gente precisa trabalhar essa diversidade”, conta Romi. O projeto, no entanto, enfrentou dificuldades quando se deparou com casos de xenofobia dentro da própria comunidade. “A gente fez uma primeira experiência que durou um ano, e essa experiência contribuiu para comprovar a nossa suspeita, ou seja, o quão difícil é levar o tema da migração e do refúgio para dentro das igrejas”. “Por que é difícil?”, ela mesma pergunta. E responde: “porque as igrejas são muito autocentradas, então quando têm que se abrir para um trabalho externo, diferente daquilo que estão acostumadas a fazer, elas encontram resistência”.
 
Abrir as igrejas para a diversidade é a missão de Romi. Nessa tarefa árdua de lutar por um país mais diverso e, ainda assim, mais unido, sobram parceiros, que vão das próprias igrejas até o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), passando por várias outras iniciativas. “E por aí a gente vai, fazendo caminho ao andar”, resume Romi.
 
Fonte: Sur.Conectas
(Revista Internacional de Direitos Humanos)
Foto: Acervo pessoal

 
No dia 31 de outubro de 1999, há 20 anos, católicos e luteranos assinaram, em Augsburg, Alemanha, uma Declaração sobre a Doutrina da Justificação, conhecida como “Declaração Conjunta Luterano-Católica sobre a Doutrina da Justificação por Graça e Fé”.
 
Dom Manoel João Francisco, bispo de Cornélio Procópio (PR) e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) escreveu um artigo no qual conta e retoma como foi o processo até chegar à declaração conjunta.
 
No número 19 da Declaração, luteranos, católicos, metodistas reformados e anglicanos “confessam juntos que o ser humano, no concernente à sua salvação, dependem completamente da graça salvadora de Deus”.
 
Talvez estejamos a nos perguntar: “Como foi possível este acontecimento? Houve concessões das partes?”. Segundo o bispo, não houve concessões de nenhuma das partes. “Ecumenismo não se faz renunciando a identidade da própria fé. Nenhuma Igreja pode fazer tal concessão. Pelo contrário, deve conhecer, cada vez mais, sua fé, para melhor respeitar a fé do irmão”, ressaltou o presidente da Comissão para o Ecumenismo da CNBB.
 
Antecipando as comemorações, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), do qual a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil faz parte, promove hoje, às 20h, na Comunidade Evangélica de Confissão Luterana em Brasília, EQS 405/406, uma celebração ecumênica para marcar a data.
 
Conheça o artigo na íntegra.
 
20 anos da Declaração da Doutrina da Justificação
 
Há 20 anos, no dia 31 de outubro, católicos e luteranos assinaram, em Augsburg, Alemanha, uma Declaração sobre a Doutrina da Justificação, conhecida como “Declaração Conjunta Luterano-Católica sobre a Doutrina da Justificação por Graça e Fé”. Posteriormente, o Conselho Metodista Mundial, (2006), a Comunhão Anglicana (2017) e a Comunhão Mundial das Igrejas Reformadas (2017) também assinaram a mesma Declaração. Por ocasião da adesão da Comunhão Anglicana, a Revda. Dr. Kaisamari Hintikka, assistente do secretário-geral da Federação Luterana Mundial, expressou sua alegria com estas palavras: “O fato de que todas as Igrejas históricas do ocidente agora compartilham um entendimento comum da justificação é uma maneira maravilhosa de marcar o aniversário da Reforma. Aquilo que costumava nos dividir, agora na verdade nos une”.
 
Antecipando as comemorações, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) está convidando para uma celebração ecumênica, no dia 04 de setembro, na Comunidade Evangélica de Confissão Luterana, em Brasília-DF.
 
Penso ser desnecessário insistir aqui sobre a importância deste “Documento”. Basta lembrar que a doutrina da justificação pela fé foi o carro chefe de toda a teologia de Lutero. Não é uma verdade de fé como as outras, mas o centro e o critério em torno do qual se articulam todas as outras verdades. Sobre esta doutrina “a Igreja permanece ou tomba”. Dela não se pode afastar ou fazer concessões, mesmo que o céu e a terra venham desmoronar. (Art. De Esmalcade, II, 1). A Igreja católica também dá a esta doutrina grande importância. O Concílio de Trento se deteve longo tempo, de 23/06/1546 a 13/01/1547, sobre ela. Foram 44 Congregações especiais e 61 Congregações gerais, resultando no Decreto sobre a Justificação com um Prólogo, dezesseis capítulos e trinta e três cânones.
 
Justamente por causa de sua importância e dos maus entendidos, católicos e luteranos, no século XVI, se lançaram condenações e excomunhões mútuas. Com a Declaração Conjunta muda-se o cenário. O clima já não é mais o de reservas, suspeitas, polêmica e confronto. A disposição agora é de aceitação recíproca. Mostra-se que “entre luteranos e católicos (e também metodistas, reformados e anglicanos) há um consenso em verdades básicas da doutrina da justificação” (DC 40). Luteranos, católicos, metodistas reformados e anglicanos “confessam juntos que o ser humano, no concernente à sua salvação, dependem completamente da graça salvadora de Deus” (DC 19). “Confessam também que não sobre a base de nossos méritos, mas da graça e na fé na obra salvífica de Cristo, somos aceitos por Deus e recebemos o Espírito Santo, que renova nossos corações, nos habilita e nos chama a realizar as boas obras” (DC 15). Com isso as condenações doutrinais do século XVI são suspensas e os anátemas do passado não podem ser aplicados ao atual ensino das cinco Igrejas (DC 41).
 
Talvez estejamos a nos perguntar: “Como foi possível este acontecimento?”. Houve concessões das partes? Não. Não houve concessões de nenhuma das partes. Ecumenismo não se faz renunciando a identidade da própria fé. Nenhuma Igreja pode fazer tal concessão. Pelo contrário, deve conhecer, cada vez mais, sua fé, para melhor respeitar a fé do irmão. Penetrando mais profundamente na verdade, começaremos a ver nossa tradição confessional sob outra luz. Onde, à primeira vista, tínhamos constatado contradição, num aprofundamento, com atitude ecumênica, poderemos ver complementação. Foi desta maneira que luteranos, católicos, metodistas, reformados e anglicanos encontraram, em poucos anos, o que não tinham alcançado em 450. Como muito bem lembra D. Jaime Chemello, no seu pronunciamento, por ocasião da cerimônia de acolhida da Declaração, aqui no Brasil: Ela “é o resultado de um caminhar juntos na obediência da fé. Perguntamos juntos às Escrituras Sagradas e ouvimos juntos as respostas, perguntamos juntos à Tradição da fé, ouvimos juntos as respostas e chegamos a este consenso. O século XXI, com certeza, vai ver os cristãos […] praticando humildemente este exercício de perguntas e de escuta das Escrituras, sem considerar-se donos daquela Palavra da qual só Deus é dono”.
 
O diálogo bilateral entre Luteranos e Católicos começou logo após o término do Concílio Vaticano II. A Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação por graça e fé foi sendo elaborada aos poucos e antecipada por outros documentos. Entre eles podem ser citados os seguintes: “Relatório de Malta” sobre O Evangelho e a Igreja (1972), Justificação pela Fé (1983), Os Anátemas do século XVI são ainda atuais? (1986), e Igreja e Justificação (1994).
 
Qual, então, a novidade da Declaração Conjunta sobre a Justificação por Graça e Fé? Os documentos que a antecederam eram apenas estudos de teólogos, embora membros de uma Comissão oficial. A Declaração Conjunta é um ato oficial, assinada por autoridades das duas Igrejas e posteriormente das outras três. A partir de então passou a fazer parte do magistério das cinco Igrejas. Deve, por isso, ser ensinada nos cursos de teologia e passada para a catequese comum dos fiéis.
 
Antes de ser assinada em 31 de outubro de 1999, a Declaração Conjunta foi submetida ao parecer da suprema autoridade das duas Igrejas.
 
A Federação Luterana Mundial fez uma consulta às Igrejas membros. Das 86 que responderam (quase 90%), ou seja, 79 a aprovaram.
 
A reação da Igreja Católica foi dada em uma Nota elaborada pela Congregação da Doutrina da Fé e pelo Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos.
 
A Nota reconhece que a Declaração Conjunta, embora represente um notável progresso, na compreensão mútua e na aproximação das partes em diálogo, ainda não é expressão de um consenso que elimine todas as diferenças entre católicos e luteranos, na compreensão da justificação.
 
A título de exemplo apresento apenas duas diferenças:
 
a) A Igreja Católica tem dificuldade de aceitar a fórmula “ao mesmo tempo justo e pecador” (simul justus et peccator), assim como a entendem os Luteranos. Acha inaceitável afirmar que “o pecado ainda habita” na pessoa justificada.
 
b) Para a Igreja Católica é incompleto afirmar que o ser humano pode rejeitar a graça. A esta afirmação dever-se-ia acrescentar a possibilidade de colaborar com a graça, o que não permitiria afirmar que o humano pode tão somente receber (mere passive) a justificação.
 
Na Igreja Luterana, entre os que não acolheram a Declaração Conjunta encontram-se o Sínodo de Missouri e um grupo de professores de Teologia de diferentes Universidades.
 
O Sínodo de Missouri a considera “uma traição ao Evangelho”. Segundo este mesmo Sínodo, o texto é ambíguo e permite aos representantes do Papa assinarem-no sem mudar, retratar ou corrigir coisa alguma do que tem sido ensinado pela Igreja Católica Romana desde o Concílio de Trento, no século XVI.
 
O grupo de professores pede à Federação Luterana da Alemanha que rejeite o acordo. Segundo eles, além de não oferecer um consenso suficiente sobre certas questões, poderá prejudicar as relações da Igreja luterana com as outras Igrejas protestantes da Alemanha e da Europa.
 
As reservas formuladas, tanto pelo lado católico, como pelo lado luterano, levaram à redação de um Anexo que deverá ser lido juntamente com a Declaração Conjunta. Nele se precisa que a justificação produz uma renovação interior do crente. “Neste sentido, as pessoas justificadas não permanecem pecadoras”, mas continuam sob “a constante ameaça proveniente do poder do pecado”. Esclarece também que “o fato do agir da graça de Deus não exclui a ação humana” e que “o ser humano justificado tem a responsabilidade de não desperdiçar esta graça, mas de viver nela”.
 
Além do Anexo, a Declaração Conjunta está acompanha de um Comunicado. Nele se afirma que, com relação aos questionamentos levantados por ambas as partes, o Anexo dá maiores esclarecimentos sobre o consenso alcançado na Declaração Conjunta. Afirma-se ainda que “ambos os parceiros de diálogo se comprometem a dar continuidade e aprofundamento ao estudo das bases bíblicas da doutrina da justificação” […] e que “luteranos e católicos vão continuar seus esforços de forma ecumênica para interpretar em seu testemunho comum a doutrina da justificação numa linguagem relevante para as pessoas de nosso tempo, levando em consideração as preocupações individuais e sociais da atualidade”.
 
Desde a assinatura da Declaração Conjunta, a Federação Luterana Mundial e o Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos têm empreendido juntos numerosas atividades para que o consenso alcançado se firme e se aprofunde.
 
Em 2000 a Federação Luterana Mundial fez um estudo sobre o significado contemporâneo da justificação, publicando-o com o título: “Justificação nos contextos mundiais”. Em 2002 promoveu um simpósio e em 2003 publicou seu relatório sob o título: “A Doutrina da Justificação: sua acolhida e significado hoje” Em 2001 a Federação Luterana Mundial e o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e a Aliança Mundial das Igrejas Reformadas promoveram um simpósio sobre o significado das indulgências nos dias de hoje.
 
Encerro estas observações com as palavras de João Paulo II a uma delegação luterana da Noruega em novembro de 2002.
 
“Comprometemo-nos a continuar caminhando ao longo do itinerário da reconciliação. A Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica, assinada em 1999, aplaina o caminho de um testemunho conjunto mais amplo e aproxima-nos um pouco mais da plena unidade visível, que constitui a meta do nosso diálogo. O Senhor nos ajude a valorizar aquilo que já foi alcançado até agora e nos confirme nos esforços em ordem a fazer com que eles se desenvolvam numa maior forma de cooperação. No início do novo milênio, o Senhor nos exorta a todos, seus seguidores,: “Duc in altum! Fazei-vos ao largo! “(Lc 5,4). Permaneçamos sempre abertos à obra surpreendente do Espírito Santo no meio de nós”.
 
Infelizmente este Documento, apesar de sua importância, permanece pouco conhecido dos fiéis das cinco Igrejas, incluindo padres e pastores. Nossos centros de formação teológica, nossas pastorais e grupos ecumênicos permanecem com a tarefa de estudá-lo e fazê-lo conhecido.
 
Dom Manoel João Francisco
Bispo de Cornélio Procópio
e presidente da Comissão Episcopal Pastoral
para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso
 
Fonte: CNBB
Foto: Reprodução
Obs.: o título foi adaptado