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A perseguição aos cristãos piorou no Sul e no Leste Asiático, mas diminuiu consideravelmente na Síria e no Iraque nos últimos dois anos, segundo a organização católica Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).
 
 
A Fundação Pontifícia publicou sua edição 2019 do informativo “Perseguidos e esquecidos?”, que cobre os relatos de ações de perseguição contra os cristãos entre de julho de 2017 e julho de 2019. 
 
É no Sul e no Leste Asiático “que a situação mais se deteriorou para os cristãos”, afirmou o diretor da AIS, Benoît de Blanpré, durante uma coletiva de imprensa em Paris. Segundo ele, três tipos de ameaças pesam sobre os cristãos nessas regiões: extremismo religioso, nacionalismo agressivo e regimes autoritários.
 
Blanpré citou o assassinato de 22 fiéis nas Filipinas em janeiro de 2019 e o atentado, no domingo de Páscoa, em três igrejas e hotéis no Sri Lanka (mais de 300 mortos), ataques reivindicados por grupos afiliados a organizações religiosas extremistas.
 
Por outro lado, “a perseguição de cristãos nos principais países do Oriente Médio, como Síria e Iraque, diminuiu consideravelmente”, observa o relatório da AIS. “Sinais significativos de melhoria” também são observados no Egito.
 
Diminuição no número de cristãos no Iraque e na Síria
 
No Iraque, os cristãos, que totalizavam 1,5 milhão antes de 2003, somam em 2019 menos de 150.000. Atualmente, na Síria, são menos de 500.000, contra 1,5 milhão em 2011.
 
Com informações da AIS e da AFP
Foto: Behrouz Mehri / AFP

 
A Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado Federal recebeu, no dia 26 de novembro, uma audiência pública para discutir o enfrentamento à violência contra a mulher. A secretária-geral do CONIC, Romi Bencke, esteve presente. Os debates ocorrem no contexto dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres (20 de novembro a 10 de dezembro). 
 
 
A iniciativa partiu de um requerimento apresentado pela Pastoral da Juventude (PJ) ao presidente da CDH, senador Paulo Paim, e faz parte de uma série de ações pensadas a partir da Campanha Nacional de Enfrentamento ao ciclo de violência contra a mulher, assumida pela PJ em 2017.
 
Para Romi, o elevado número de casos de violência contra a mulher no Brasil está ligado, em parte, à ação de grupos fundamentalistas religiosos. “A gente tem percebido no Brasil uma campanha que é protagonizada por grupos fundamentalistas e impacta diretamente na vida das mulheres. Essa relação existe porque todo discurso fundamentalista é um discurso patriarcal, que desrespeita a vida das mulheres, a vida da população negra, a vida das pessoas LGBT”, disse.
 
Ela também citou algumas passagens bíblicas que podem reforçar o papel de submissão das mulheres, e afirmou que as igrejas precisam atuar para que esse tipo de texto não seja interpretado ao pé da letra. “As igrejas têm um papel extremamente relevante na superação da violência contra a mulher. Isso porque todos os pilares que sustentam o patriarcado foram construídos com base numa hermenêutica patriarcal da Bíblia. Então, a violência contra a mulher tem uma base de argumentação teológica também”, acrescentou.
 
O secretário nacional da Pastoral da Juventude, Davi Rodrigues, falou da importância desse espaço de debate. “A Pastoral da Juventude quer provocar diferentes lideranças, atores sociais e políticos, desafiando cada um e uma a refletir, dialogar e desenvolver ações transformadoras, rompendo as correntes e apontando para a esperança de libertação”, declarou.
 
Integrante da Campanha Nacional de Enfrentamento aos Ciclos de Violência contra a Mulher, Daiane Zito Rosa destacou a importância da educação para a redução do problema. “Nós precisamos pensar a vida dos homens que cometem opressões e violências, e construir políticas públicas que não nos tornem também opressores. Não precisamos de mais cadeias, de mais punição, de uma nova forma de matar homens pretos. Precisamos de educação”, disse.
 
Continuidade
 
O CONIC solicitou que o tema continue sendo trabalhado no âmbito da Comissão de Direitos Humanos, e sugeriu que também seja promovido um ciclo de debate sobre a instrumentalização da liberdade religiosa para legitimar discursos de ódio.
 
Com informações da Agência Senado e da Pastoral da Juventude (PJ)
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

 
O pastor sinodal Guilherme Lieven, do Sínodo Vale do Itajaí, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), com sede em Blumenau/SC, esclareceu no documento “As Comunidades e Paróquias do Sínodo Vale do Itajaí denunciam a ligação abominável da sua confessionalidade luterana com grupos nazistas e da Ku Klux Klan”, e também uma nota à imprensa, em reação à reportagem de Lucas Paraizo no NSC Total, que apresenta resultado da pesquisa da Dra. Adriana Dias, doutora em Antropologia Social pela Universidade de Campinas/SP, que identifica 69 grupos nazistas em atividade em Santa Catarina e dois grupos da Ku Klux Klan em Blumenau, condenando a ligação de um desses grupos ao que a reportagem qualifica de “luteranismo”.
 
 
O “luteranismo”, se identifica com a vivencia da fé cristã em comunidades no âmbito da IECLB, com base em quatro princípios bíblico-teológicos: somente a fé, somente Cristo, somente a graça, somente a Escritura Sagrada. Tal vivência da fé é antagônica a pessoas e grupos que se identificam como nazistas e da Ku Klux Klan e promovem a violência, a humilhação, a discriminação, o culto à supremacia racial branca e outras ações que ameaçam a população e a sociedade civil. É um contrassenso ligar ao luteranismo os objetivos e conteúdos ideológicos destes grupos ou das pessoas que os integram.
 
“Como IECLB no Vale do Itajaí, rechaçamos qualquer ideologia de cunho racista, discriminatório, humilhante ou fascista. Outrossim, não nos responsabilizamos por eventuais fiéis ligados à IECLB que particularmente se declaram de confissão luterana e, simultaneamente, pertencem a qualquer desses grupos cujas ideologias condenamos. Nos posicionamos, enquanto luteranos que somos, como parte de uma instituição eclesiástica que alicerça sua crença e vivência de fé na justiça, no amor e na reconciliação de Deus revelada no Evangelho”, afirmou.
 
Com informações da IECLB

 
Mais de 250 agentes da Rede Cáritas de todas as regiões do Brasil participaram da XXIV Assembleia da Cáritas Brasileira, realizada de 20 a 22 de novembro, em Teresina (PI). Com o tema Bem Viver: Esperança, Resistência e Profecia e o lema “Erguei-vos e levantai a cabeça, pois está próxima a vossa libertação” (Lc 21,28), a Assembleia marcou um momento estratégico para a Cáritas de reflexão da missão institucional, aprofundamento do debate sobre o Bem Viver, celebração e acolhida de novas entidades-membro, além da eleição da nova diretoria da instituição.
 
 
Em Assembleia, os delegados representantes de mais de 100 entidades-membro da Rede elegeram a nova diretoria da Cáritas Brasileira para o quadriênio 2020-2023, são eles: presidente dom Mário Antônio da Silva, Cáritas Diocesana de Roraima (RR); vice-presidente Cleusa Alves da Silva, da Cáritas Diocesana de Ruy Barbosa (BA); secretária Nilza Mar Fernandes de Macedo, da Cáritas Diocesana de Bagé (RS); tesoureiro Udelton da Paixão Espírito Santo, da Cáritas Diocesana de Paracatu (MG), para diretor-executivo a diretoria indicou Carlos Humberto Campos, da Cáritas Brasileira Regional Piauí.
 
Para o conselho fiscal foram eleitos: Aguinaldo Lima, da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo (SP); Anadete Gonçalves Reis, da Cáritas Arquidiocesana de Brasília (DF); e Paulo Evangelista dos Santos, da Cáritas Arquidiocesana de Aracaju (SE). Os conselheiros fiscais suplentes eleitos são: Afonso de Oliveira Brito, da Cáritas Arquidiocesana de Manaus (AM); Istélia Folha, da Cáritas Arquidiocesana de Palmas (TO); e Maria Rosângela Moretti, da Cáritas Diocesana de Jundiaí (SP).
 
Durante a Assembleia, novas sete entidades-membro oficializaram sua integração à rede Cáritas Brasileira, são elas: Cáritas Diocesana de Roraima (RR); Cáritas Diocesana Itacoatiara (AM); Cáritas Arquidiocesana de Olinda e Recife (PE); Cáritas Diocesana de Luz (MG); Cáritas Diocesana de Teófilo Otoni (MG); Cáritas Arquidiocesana de Curitiba (PR); e Cáritas Diocesana de Palmas e Francisco Beltrão (PR). A partir da XXIV Assembleia Nacional, 187 entidades-membro passam a integrar a rede Cáritas no Brasil.
 
CONIC 
 
A secretária-geral do CONIC, Romi Bencke, representou o Conselho no evento. No primeiro dia, ela participou do painel Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil e os Desafios da atual conjuntura. Ao lado dos bispos de Itapeva-SP e Floriano-PI, Romi ajudou a refletir sobre “como manter o testemunho cristão em meio a situações de negação do outro, exclusão, discriminação, imposição religiosa, entre outros fatores que fragilizam a fraternidade humana”.
 
Marco Referencial
 
Escutar as vozes de suas bases tem sido uma opção metodológica da Cáritas em seus 63 anos de presença na vida das pessoas mais empobrecidas do país. Entre debates, reflexões e diálogos, o processo de escuta preparatório para a Assembleia aconteceu durante todo o ano, envolvendo as entidades-membro em todas as regiões do país e culminando nos últimos dias em Teresina, quando foi apresentada a síntese desse processo.
 
Desde o início do ano, os agentes da Cáritas Brasileira se debruçaram sobre o Marco Referencial da entidade, documento construído na última Assembleia Nacional, em 2016, em Aparecida (SP). O processo de escuta teve como objetivo refletir sobre a identidade da Cáritas; discutir os princípios para o aprimoramento nos campos jurídico, institucional e político; refletir sobre as diretrizes gerais, a missão e as orientações estratégicas; além de avaliar os espaços auxiliares de gestão.
 
No último dia da Assembleia (22), o consultor da Cáritas Brasileira para a área de atuação Meio Ambiente, Gestão de Risco e Emergência (MAGRE), José Magalhães de Souza, e a assessora da Cáritas Regional Minas Gerais e coordenadora da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA), Valquíria Lima, destacaram alguns pontos importantes que surgiram no processo da escuta avaliativa do Marco Referencial. 
 
Entre eles, Magalhães ressaltou a identidade eclesial da Cáritas. “Ainda é importante dizer para quem não se convenceu disso, que a Cáritas é um organismo da Igreja. Não é um apêndice, isso é explicitamente declarado pela Santa Sé e pelo Vaticano”, afirmou. Ele reforçou que a sustentabilidade deve ser uma área permanente para a rede Cáritas, a qual a comunicação tem um papel fundamental. “Ao trabalhar a sustentabilidade, devemos constituir uma política de comunicação no país. Pensar a comunicação para a transformação social”, disse.
 
Segundo Valquíria Lima, o processo de escuta valoriza o trabalho das bases da rede Cáritas e serve como referência para a ação nos próximos anos. “Precisamos olhar nossos avanços com esperança. Somos uma instituição que trabalhamos com 12 áreas temáticas, isso é potência, capilaridade e presença com os empobrecidos”. Valquíria também destacou elementos sobre a identidade da Cáritas, que foram levantados a partir das escutas. “O rosto da Cáritas é o rosto dos empobrecidos. É o dos agricultores, dos quilombolas, das pessoas em situação de rua, dos migrantes, das pessoas mais discriminadas da sociedade. Estamos lá porque temos uma diversidade de ação que chega ao encontro dessas pessoas”, disse.
 
Valquíria também reforçou a importância da formação e das ações de incidência política. “Precisamos fazer uma incidência que fortaleça nossos espaços de participação popular, redes fóruns, conselhos, movimentos sociais. Fazermos incidência e mobilização social juntos”, afirmou. No processo de escuta, ela também apontou os elementos da mística e da espiritualidade libertadora, destacando que a rede Cáritas não pode perder sua inspiração nas religiosidades populares.
 
Ao concluir sua fala, Magalhães esperançou ao citar o poeta e dramaturgo pernambucano Ariano Suassuna: “Não sou nem otimista, nem pessimista. Os otimistas são ingênuos e os pessimistas amargos. Sou um realista esperançoso. Sei que é para um futuro muito longínquo. Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo inteiro”.
 
Com informações da Cáritas
Foto: Reprodução

 
Maria da Penha Maia Fernandes não desiste. Foram quase 20 anos de luta contra a impunidade, que só chegou ao fim em 2001, depois que a Organização dos Estados Americanos (OEA) responsabilizou o Brasil por omissão estatal na apuração da tentativa de feminicídio que a deixou paraplégica. A lei que leva o nome da ativista e virou símbolo de proteção acaba de completar 13 anos. Mas algumas batalhas continuam as mesmas. "Os pequenos municípios não são assistidos, com raras exceções", afirmou Maria da Penha.
 
 
Até o ano passado, as brasileiras só contavam com atendimento em delegacias especializadas em 8,3% das cidades, segundo levantamento recente do IBGE. E só há casas-abrigo de gestão da prefeitura para acolher vítimas expostas a situações de alto risco em 2,4% dos municípios. Para Maria da Penha, as falhas no sistema de apoio são parte da explicação para o fato de o número de mulheres mortas apenas por serem mulheres continuar subindo. "Os feminicídios acontecem quando não existe a política pública, quando a mulher tem medo de denunciar."
 
O investimento em ensino de gênero nas escolas, uma das recomendações do relatório da OEA que foi incluída na lei, também não foi feito. Virou questão de honra para Maria da Penha. Lutas antigas se somam a novos desafios, como os possíveis impactos que a nova legislação sobre armas pode ter no combate ao feminicídio e na redução no orçamento dedicado a conter a violência doméstica, que passou de mais de R$ 88 milhões em 2017 para R$ 36,7 milhões neste ano. "Desde o momento que os recursos necessários para determinada política pública funcionar são retirados, claro que é um retrocesso." 
 
Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista concedida pela ativista ao Estado.
 
A Lei Maria da Penha acaba de completar 13 anos. O Brasil avançou no combate à violência contra a mulher? 
 
Sim. A lei é considerada uma das três melhores do mundo no enfrentamento da violência. E eu acho que o papel da imprensa é de informar o número de feminicídios e de denúncias feitas. No momento em que você expõe a quantidade de denúncias, mostra que o homem continua violento — e agora a gente está sabendo o quanto ele é violento, já que antes não existia estatística no País. 
 
Estamos evoluindo para educar a população e evitar mais casos? 
 
O Brasil está melhorando em relação ao movimento de mulheres, que não descansa em mostrar a importância de denunciar. As estatísticas das denúncias são muito altas. Infelizmente, os feminicídios acontecem quando não existe a política pública, quando a mulher tem medo de denunciar. 
 
Se a conscientização das mulheres vem melhorando, por que ainda não conseguimos evitar que essa violência aconteça? 
 
Isso ocorre porque há o descompromisso do poder público. 
 
Como a senhora avalia a atual política de combate à violência doméstica? 
 
Gostaria que este governo tivesse um olhar mais aprofundado para a criação de políticas públicas. E que a questão das armas fosse repensada. Também precisamos conseguir, por meio da educação, desconstruir o machismo. 
 
Mudar a regra de posse de armas pode prejudicar o combate à violência contra a mulher? 
 
Com certeza. Eu não concordo com essa política, acho um absurdo levar uma arma de fogo, que tem um alcance maior do que uma arma branca para dentro de casa. Nós provavelmente teremos um aumento no assassinato de mulheres.
 
Dados do Ministério da Mulher mostram que o orçamento para o combate à violência contra a mulher caiu em 2019. Isso pode ter um impacto direto no combate à violência doméstica? 
 
Desde o momento em que os recursos necessários para determinada política pública funcionar são retirados, claro que é um retrocesso. O poder público tem de ter esse compromisso, pois assim vamos evitar que mulheres sejam assassinadas por falta de política pública, por não ter onde denunciar. É um descompromisso muito grande. 
 
Quais são os pontos ainda complicados para o cumprimento total da Lei Maria da Penha? 
 
Demorou oito anos para a lei estar presente em todas as capitais brasileiras. E os pequenos municípios não são assistidos, com raras exceções. Para a lei funcionar, é preciso ter o centro de referência da mulher, a casa-abrigo, a delegacia da mulher e o juizado. Sabemos que nos pequenos municípios não é possível ter essas quatro estruturas. Mas elas poderiam estar presentes como a saúde está. Existem as macrorregiões, nas quais municípios maiores abrangem políticas públicas de um grande hospital e atendem a população das regiões circunvizinhas. Isso deveria ser feito com a Lei Maria da Penha também.
 
Como isso ocorreria? 
 
Nós estamos conscientizando os prefeitos dos pequenos municípios de que é interessante criar o Centro de Referência da Mulher dentro de um posto de saúde para não onerar aquele município e ser mais fácil de a mulher, ao entrar no posto, conseguir ser atendida. Seria favorável à mulher, já que ela não teria obrigação de denunciar o seu agressor naquele espaço, mas seria orientada sobre o funcionamento da lei.
 
Quais são os principais problemas no combate à violência doméstica? 
 
Eu acho que ainda falta investir muito em educação, pois qualquer cultura só se desconstrói através dela. Tanto que, no meu processo, a Organização dos Estados Americanos (OEA) enviou ao Brasil um relatório final, pedindo esse investimento em educação para se desconstruir o machismo já na fase do ensino fundamental.
 
Por que nenhum governo conseguiu colocar o ensino de gênero dentro das escolas? 
 
São 13 anos de existência da lei. E o governo em si está realmente parado. Essa educação já deveria ter acontecido há mais tempo, mas é um ponto que a gente nunca pode deixar de falar. 
 
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo
Foto: Leandro de Santana/Agência Pixel Press/Estadão Conteúdo

 
O equivalente a secretário das Relações Exteriores do Vaticano urgiu que católicos e anglicanos deixem de lado as diferenças em vistas de um bem maior.
 
A reportagem é de Ruth Gledhill, publicada por The Tablet, 18-11-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
 
Apesar das diferenças, católicos e anglicanos deveriam trabalhar juntos como um “imperativo moral” para promover o Reino de Deus, disse o equivalente a secretário das Relações Exteriores do Vaticano.
 
Dom Paul Gallagher, secretário para as Relações com os Estados do Vaticano, falou que, apesar de deficiências e “bagagens históricas”, anglicanos e católicos deveriam incentivar uns aos outros, fortalecendo-se e confirmando-se em tudo o que fazem para a “cura” das feridas do mundo.
 
O religioso fez este e outros comentários em sua homilia na Igreja de Santo Inácio, em Roma, em cerimônia para encomendar o Arcebispo Ian Ernest, ex-bispo das Ilhas Maurício e primaz da Igreja Anglicana do Oceano Índico, como o novo diretor do Centro Anglicano em Roma.
 
Gallagher falou:
 
“Não é preciso eu dizer que o mundo, hoje, enfrenta uma série de desafios sem precedentes em todas as frentes, onde continente algum está excluído e onde escasseiam portos seguros. Alguns acabaram enxergando o movimento ecumênico como uma questão da Igreja, quase um assunto cristão interno, no qual a nossa unidade será o motor para o crescimento ou mesmo de sobrevivência da Igreja de Cristo.
 
“Visto tudo o que enfrentamos hoje, visto a urgência e a precariedade da nossa situação, eu diria que o envolvimento ecumênico é um imperativo moral para todos nós que somos batizados em nome da Santíssima Trindade. Devemos atuar juntos como um Corpo de Cristo, não porque seja agradável ou aconchegante, mas porque precisamos em resposta às necessidades prementes da humanidade”.
 
Em referência à época em que serviu na Nunciatura Apostólica em Bujumbura, capital de Burundi, o religioso disse:
 
“Lembro de uma cena de grande paz e serenidade, quase paradisíaca, mas agora, enquanto uma análise mais próxima revela uma realidade de sofrimento, a região enfrenta graves problemas políticos, que têm provocado uma grande dor. Estes conflitos nos desafiam, mas também são facilmente ignorados em meio a tantas outras questões que a comunidade internacional enfrenta atualmente”.
 
“Inevitavelmente”, continua o líder católico, “nós nos perguntamos como os cristãos podem responder a estes problemas. O que temos a oferecer? Que incentivo podemos dar àqueles ao redor do mundo que enfrentam situações que desafiam alguma resolução, a sabedoria popular e o senso comum? O que dizemos e fazemos nestes tempos de perigo?”
 
Gallagher conheceu o Arcebispo de Canterbury, Justin Welby, quem encomendou Ernest, em Bujumbura quando o clérigo da Igreja da Inglaterra trabalhava como cônego de uma catedral local em vista da paz e reconciliação nos países francófonos do continente.
 
Gallagher lembrou: “Hoje, temos ciência das nossas limitações, imperfeições e falhas, e também dos nossos pecados históricos e atuais. No entanto, existe o perigo de acabarmos presos em nossas próprias inadequações, de ficarmos paralisados e sermos incapazes de agir ou reagir, e existe o perigo de cedermos ao pensamento de que os outros são mais capazes de realizar as tarefas, quem sabe até de que o nosso momento já passou, e que devemos deixar as coisas para outras pessoas com visões e ideias novas. Mas, ao pensar assim, corremos o perigo de não mais anunciar a Cristo, o poder inspirador de sua Palavra viva e de sua graça, nem aqueles dons do Espírito Santo de Deus, que renovam e curam”.
 
As relações entre as duas igrejas não precisam ser conflituosas. “Olhando de volta para a África, é verdade que aí, e em outros lugares, as nossas relações muitas vezes foram marcadas por uma rivalidade denominacional, mas nem sempre. Na África oriental e central, os anglicanos e católicos têm orgulho do testemunho e do legado dos Mártires Ugandenses, e recentemente nos esforçamos para trabalhar juntos sempre que possível”.
 
Na semana passada, o Papa Francisco anunciou que visitará o Sudão do Sul em 2020. Após uma audiência privada entre o papa e Welby na Casa Santa Marta, no Vaticano, e antes da cerimônia acima referida, ficou confirmado que Welby irá se juntar ao pontífice em sua viagem, conforme já era esperado. A visita deverá incluir Salva Kiir e Riek Machar, lideranças de lados opostos na guerra civil no país.
 
Gallagher disse na homilia: “O Santo Padre e o arcebispo anglicano nutrem a esperança de poderem atuar juntos para o bem do povo do Sudão do Sul. Fazendo assim, damos continuidade ao princípio do ministério e do testemunho comuns abraçado em Liverpool pelo Bispo David Shepherd e por Dom Derek Worlock, resumido no título do livro publicado por eles: ‘Better Together’ (Melhor juntos)”.
 
Lideranças anglicanas e de outras denominações cristãs da Inglaterra, dos EUA, da Itália e das Ilhas Maurício estiveram presentes na cerimônia, que contou com a presença também de diplomatas e apoiadores locais do Centro Anglicano, em Roma. A embaixadora inglesa à Santa Sé, Sally Axworthy, participou das intercessões, que incluíram orações pela paz no Sudão do Sul. O administrador eclesiástico da Diocese das Ilhas Maurício, Sténio André, fez a leitura de uma lição do Antigo Testamento.
 
Fonte: IHU Unisinos
Foto: Vatican Media

 
Uma das características dos movimentos pentecostais é sua enorme preocupação com a vida após a morte e com o julgamento final que Deus trará sobre as nações. Isso se manifesta constantemente nas diversas pregações, bem como nos diversos cânticos que compõem os cultos pentecostais, de maneira que é muito difícil ir a alguma igreja desse movimento e não ouvir esse tipo de discurso.
 
Como consequência, a preocupação a respeito da vida espiritual se torna imprescindível para toda pessoa que se diz fiel à proposta cristã. Essa vida deve ser cuidada, alimentada, provada, devendo também resistir às tentações enviadas pelo diabo para que não se caia nelas, a fim de não comprometer a santidade que se deve manter diante de Deus. Santidade essa, que é garantidora de que, no julgamento final, tal pessoa receberá o galardão como recompensa da vida que viveu na Terra, dando testemunho a respeito de Cristo.
 
O testemunho, por sua vez, deve se manifestar por meio das atitudes de santidade e posturas condizentes com uma suposta postura que se acredita que Jesus teria, o que, na maioria das vezes e de forma errônea, recai sobre questões de usos e costumes e questões de cunho moral fundamentalista. Com isso, não é de se espantar que na maioria das igrejas pentecostais brasileiras se encontrem pessoas que acreditam na literalidade do texto bíblico, pregando essa literalidade como justificativas para pautas morais conservadoras. Sob o discurso do “Está escrito” e “Deus disse em sua Palavra” condenam tudo aquilo que foge de uma moral puritana, colocando essa moral como consequência da vida em santidade e a santidade como espelho dessa vida moral. Com isso, percebe-se um círculo vicioso: é preciso estar em santidade, mas essa santidade é percebida por meio do conservadorismo moral, que por sua vez, leva à santidade requerida por Deus.
 
Diante desse círculo, que nasce com uma preocupação a respeito da vida espiritual santa que se deve ter, não é difícil encontrar pessoas cristãs vivendo em mundos paralelos, como se existisse um mundo espiritual, com suas regras, moralidade etc., e um mundo físico, no qual se trabalha e vive o cotidiano, sendo o primeiro mais importante do que o segundo, uma vez que o mundo do cotidiano é visto por muitos como somente uma fase que precisa se passar para atingir o tão esperado céu.
 
Essa postura, no entanto, mostra-se como extremamente perigosa e como um banquete para charlatões da fé que desejam manter o seu domínio sobre as pessoas que não tem conhecimento sobre a fé cristã e que acreditam que o pastor, a pastora ou o padre são as vozes de Deus no mundo. Sob o discurso de que são enviados por Deus e devem ser seguidos sem questionamentos, visto estes serem indícios de falta de fé, os/as charlatões induzem seus fieis a não se preocuparem com as questões políticas, sociais, econômicas e culturais da sociedade em que vivem, por considerá-las como “coisas do mundo” que devem ser rejeitadas e são empecilhos para a vida em santidade requerida por Deus.
 
O discurso de preocupação com a vida espiritual, dessa forma, gera cristãos e cristãs apáticos e que não se envolvem com a sociedade visando sua transformação estrutural. No lugar, acreditam que Deus está preocupado com pautas morais e que são elas as garantidoras de que Jesus está sendo pregado e compreendido. Esquecem-se de que Jesus foi um péssimo exemplo de moral na sua sociedade, condenado justamente pelos líderes religiosos do seu tempo que viam nele um “glutão e bebedor de vinho”, e alguém que “caminha com pecadores e come com eles”.
 
O Reino de Deus pregado por Jesus não tem a ver com pautas morais e listas de pode e não pode. Muito pelo contrário, tem a ver com a luta pela justiça para com os injustiçados, pelo direito dos pobres, pela igualdade social e pelo amor caridoso e fraterno entre irmãos e irmãs, uma vez que todos e todas são filhos e filhas do mesmo Deus.
 
Em Jesus se percebe que não há vida espiritual que não seja também mundana e que não toque a realidade do mundo visando sua transformação estrutural. Todo discurso que visa somente uma preocupação com a vida pós-morte se mostra como ameaça ao testemunho de Cristo e do anúncio do Reino de Deus que há de vir.
 
O chamado de Cristo nunca foi para se viver num mundo paralelo e a pregação de Jesus mostra que nunca foram pautas morais as definidoras de santidade e comunhão com Deus. Muito pelo contrário, é o amor dedicado a cada um e cada uma que mostra que somos discípulos e discípulas de Jesus, de maneira que não há lista de pode e não pode, mas, como diz Agostinho, deve-se amar a Deus e fazer o que se quiser fazer, justamente por ser o amor a medida cristã de todas as coisas.
 
*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia (UFMG).
 
Fonte: Dom Total
Foto: Pixabay

 
No Brasil, cresce os registros de intolerância religiosa. As religiões de matriz africana são as que mais reportam diversos tipos de violações de seus direitos, que vão desde ofensas verbais a depredação do espaço de culto, ameaças de morte e até tentativas de homicídio[1]. Povos indígenas, católicos, espíritas, religiões orientais e também alguns grupos evangélicos estão na lista dos que sofrem com o problema da intolerância, que é crime[2]. Em média, o Brasil tem uma denúncia de intolerância religiosa a cada 15 horas[3].
 
Falando sobre intolerância religiosa[4], a advogada Roberta Lídice lembra que “vivemos em um país LAICO, onde a liberdade religiosa deve ser respeitada, tendo como princípio a imparcialidade em assuntos religiosos, não apoiando ou discriminando nenhuma religião, com fulcro no artigo XVIII da Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em 1948, sendo esta também uma garantia constitucional, conforme dispõe o artigo 5º, inciso VI, da Constituição Brasileira de 1988: VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.”
 
Está claro, na lei, que todos têm seus direitos assegurados. 
 
Mas na prática não é o que acontece!
 
Para além das leis, será que não falta criarmos uma cultura de diálogo? 
 
Foi refletindo sobre essas questões que, há cerca de um ano, a Igreja Presbiteriana Unida de Brasília (IPUBSB) passou a oferecer uma atividade física aos sábados pela manhã: o Tai Chi Chuan – prática que remete ao taoísmo[5] e é bastante popular na China.
 
É um pequeno grupo conduzido por dois apreciadores da arte chinesa: Ruan Lucas (membro da IPUBSB) e Felipe Rodrigues (Católico Romano), ambos alunos da UnB - cursos de Letras e Literatura Japonesa e curso de Engenharia Ambiental, respectivamente. 
 
 
Cristãos de igrejas diferentes, eles compartilham a fé e a prática do Tai Chi Chuan. Na convergência do que lhes é comum, juntaram-se para pôr essa vivência a serviço do bem-estar da comunidade do Lago Norte. De quebra, estão conseguindo fazer com que membros de suas igrejas passem a olhar para outras culturas de maneira respeitosa.
 
“É interessante lembrar que o Tai Chi Chuan é fruto da rica civilização chinesa, particularmente do contexto do Taoísmo, cuja concepção de energia, movimento, harmonia, sabedoria expressam não apenas uma atividade física, mas uma cultura e um modo religioso integrado de ver o ser humano e natureza. Claro que a atividade oferecida é apenas um traço desta prática, onde os movimentos e corporeidade são encarados de uma forma que potencialize a saúde”, explica o pastor da IPUBSB, Isaque de Góes. 
 
Não é comum uma Igreja protestante ou evangélica dispor dessa arte. Por que será? O desafio é entender que as Igrejas expressam sua fé e testemunho em várias dimensões, uma destas é a tarefa é construir pontes entre culturas, religiões e saberes. 
 
“Tudo que vivenciamos expressa nosso testemunho de fé cristã. Principalmente os compromissos com o conjunto da sociedade.  Isso demonstra que a Igreja deve ter, precisa ter, uma preocupação legítima com o bem-estar e a saúde de nosso povo. Que há bandeiras comuns a todas as igrejas e religiões das quais não podemos abrir mão, como a diminuição da violência, o respeito aos Direitos Humanos, a natureza, a proteção social aos menos favorecidos, a luta contra desigualdades e a capacidade de ofertar nossa espiritualidade como um elemento de construção de pessoas saudáveis e maduras”, completa Ruan. 
 
Nesse sentido, a IPUBSB entende o Cristianismo como meio que possibilita o encontro e o diálogo, bem diferente de grupos que, em nome da fé, protagonizam a intolerância e a barbárie[6]. “Não podemos reduzir a evangelização da Igreja simplesmente a obter novos membros, ou ao bem a ser feito apenas ao nosso grupo religioso, ou mesmo a oferecer seu serviço apenas como justificativa para atrair pessoas a nossa igreja”, explica o pastor. 
 
Atuação em outros ambientes
 
O grupo de Tai Chi Chuan da IPUBSB também divulga a arte em outros espaços, de modo a ampliar o número de beneficiados com a prática, como no Centro de Saúde do Lago Norte (da Secretaria de Saúde do DF), sob a coordenação do mestre Edilberto Zacarias. Assim, procuram divulgar o que há de interessante nas suas atividades e fortalecer em Brasília o Tai Chi como forma de compromisso social por parte da Igreja.  
 
Mas, o que há em comum entre o Tai Chi Chuan e a fé crista? 
 
Apesar de representarem civilizações distintas e culturas diferentes, ambas expressam uma preocupação em desenvolver pessoas que tenham uma espiritualidade profunda, autoconhecimento, consciência da corporeidade e cuidado consigo, com o outro e com a natureza a qual estamos ligados; sem esquecer-se da ética como consciência de quem somos, e de nossa capacidade de nos inserirmos no mundo para melhorá-lo de forma não destrutiva, mas com ações que promovam o bem-estar de todos (cf.: Filipenses 4:8).
 
“Apenas com diálogo podemos superar a tentação do proselitismo. Isso facilita a inserção na realidade e a disposição legítima de oferecer serviços em nosso entorno. A falta desse tipo de pensamento é a raiz de certa indiferença social em algumas igrejas”, concluiu Isaque. Raiz da indiferença e, acrescentaríamos: berço de intolerâncias aqui e acolá.
 
Serviço:
 
Quando: Todos os sábados, das 8h30 às 9h30.
Onde: SHIN QL 7/9 – Igreja Presbiteriana Unida do Lago Norte, próximo ao Big Box. 
 
 
Notas
 
[1] https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2019/06/13/interna-brasil,762632/disque-100-registra-mais-de-500-casos-de-intolerancia-religiosa.shtml 
[2] https://jus.com.br/artigos/59908/intolerancia-religiosa-e-crime-em-defesa-do-estado-laico-e-preservacao-da-dignidade-da-pessoa-humana
[3] https://veja.abril.com.br/brasil/brasil-tem-uma-denuncia-de-intolerancia-religiosa-a-cada-15-horas/
[4] https://jus.com.br/artigos/59908/intolerancia-religiosa-e-crime-em-defesa-do-estado-laico-e-preservacao-da-dignidade-da-pessoa-humana
[5] https://www.infoescola.com/artes-marciais/tai-chi-chuan/
[6] https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/08/14/policia-investiga-acao-do-bonde-de-jesus-contra-terreiros-de-religioes-de-matriz-africana-no-rj.ghtml

 
Teólogos luteranos e ortodoxos discutiram, entre 24 de setembro e 1 de outubro, na Albânia, “O Lugar e o Papel do Espírito Santo na Vida da Igreja”. Durante o encontro, eles identificaram áreas de concordância entre as duas confissões, mas também pontuaram que ainda há questões que precisam de uma discussão mais aprofundada.
 
Este foi o primeiro encontro do Comitê Preparatório para a 18ª Sessão Plenária da Comissão Conjunta Internacional sobre o Diálogo Teológico entre luteranos e ortodoxos. 
 
Ao longo dos dias, os membros do Comitê falaram sobre o papel do Espírito Santo na vida da Igreja, no mundo, no batismo, no ministério e na eucaristia. Eles também prepararam um documento comum, com base nas declarações anteriores da Comissão, sobre as obras, o papel e o lugar do Espírito Santo.
 
A próxima reunião preparatória será de 29 de maio a 4 de junho de 2020, na Alemanha.
 
Clique aqui para acessar a notícia em inglês.
 
Com informações da Federação Luterana Mundial
Foto: Reprodução
 

 
Está em curso o extermínio programado dos povos indígenas livres ou em situação de isolamento voluntário no Brasil. Não se trata tão somente de uma omissão do governo federal, mas de sua ação deliberada para permitir que esses povos sejam massacrados. Faz parte desse plano criminoso e genocida a desconstrução de todo o sistema de proteção da Fundação Nacional do Índio (Funai), ao mesmo tempo que, ora de forma velada, ora de forma explícita, respalda os invasores de seus territórios.
 
Segundo os dados coletados entre janeiro e novembro deste ano pelo Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), 21 Terras Indígenas com registros da presença de povos isolados estão invadidas: seja por madeireiros, garimpeiros, grileiros, caçadores, pescadores e extrativistas vegetais. O levantamento não engloba os territórios com a presença desses povos onde não há nenhuma providência em termos de demarcação e proteção de suas terras. No total existem no Brasil registros de 114 povos indígenas isolados, dos quais apenas 28 são confirmados pela Funai.
 
A estratégia de extermínio e genocídio se torna ainda mais evidente sabendo que o governo conhece muito bem a situação de vulnerabilidade em que se encontram esses povos, a fragilidade que têm para se defender e a liberdade de ação de criminosos em regiões sem a presença protetiva do Poder Público.
 
Os povos indígenas isolados, assim como os demais povos indígenas e comunidades tradicionais, a própria Floresta Amazônica e tudo que nela habita e seus aliados e defensores, não só são considerados como obstáculos, mas como inimigos a serem combatidos, vencidos ou destruídos, na medida em que atrapalham ou oferecem resistência aos planos governamentais.
 
Por isso, o governo convenientemente fecha os olhos e favorece a ação de assassinos e criminosos ambientais que se encarregam do serviço sujo. Uma vez “limpo” o caminho, estão dadas as condições para a apropriação das terras por latifundiários para a produção de commodities agrícolas e para que empresas promovam o saque das riquezas naturais da região, como a exploração mineral, inclusive pelo garimpo, que o governo pretende liberar nas terras indígenas. Essa lógica perversa, que permite o extermínio da sociobiodiversidade da Amazônia para satisfazer a ganância de poucos, precisa ser parada.
 
Na Terra Indígena Vale do Javari (AM), concentração do maior número de povos indígenas isolados no país, com 18 registros, de dezembro de 2018 até o momento já aconteceram cinco ataques a tiros contra a Base de Proteção Etnoambiental do Rio Ituí-Itacoaí denunciados pela União das Nações Indígenas do Vale do Javari (Univaja) e confirmados pelos funcionários da Funai que trabalham nessas bases.
 
Em setembro deste ano, o servidor da Funai Maxciel Pereira dos Santos foi assassinado em Tabatinga, no Amazonas, provavelmente devido ao seu trabalho de fiscalização na Base do Rio Ituí-Itacoaí. Além disso, missionários fundamentalistas, inclusive estrangeiros, estão entrando na TI Vale do Javari sem autorização dos povos indígenas e desrespeitando as medidas de proteção da Funai, colocando em sério risco a sobrevivência desses povos isolados.
 
A situação se espelha país afora. Paulo Paulino Guajajara, guardião da floresta, foi assassinado a tiros, em 1 de novembro, numa emboscada executada por invasores no interior da Terra Indígena Arariboia (MA), habitada pelo povo Guajajara e grupos isolados Awá-Guajá. Laércio Guajajara, que acompanhava Paulo Paulino, sofreu uma tentativa de homicídio ao ser atingido por dois tiros: um no braço e outro nas costas. A Terra Indígena sofre com a invasão de madeireiros e caçadores há anos. São indivíduos que se sentem à vontade para atacar os indígenas no interior de suas terras e são uma grande ameaça aos grupos isolados.
 
Na Terra Indígena Inãwébohona, localizada na Ilha do Bananal, no dia 9 de outubro, foram avistados oito indígenas isolados por um brigadista do PrevFogo durante ação de combate a um grande incêndio florestal, confirmando as informações de indígenas da região e do Cimi com insistentes pedidos e repasses à Funai para que as necessárias medidas de proteção fossem adotadas. As autoridades, apesar do evidente risco que corre esse povo isolado devido ao grande número de invasores explorando as riquezas naturais nessa Terra Indígena e dos grandes incêndios no período seco, e mesmo provocadas a agir pelo Ministério Público Federal (MPF), se mantêm em silêncio.
 
Na carta divulgada no dia 06 de novembro, dirigida “à sociedade brasileira e às autoridades competentes”, o conjunto de servidores lotados nas Frentes de Proteção Etnoambiental (FPEs) da Funai manifestam sua preocupação diante desse quadro assustador de ameaça a vida dos povos indígenas isolados e revelam sua angústia e impotência porque não são oferecidas as devidas condições de trabalho, a segurança e o respaldo para exercerem o seu papel de fiscalização dos territórios.
 
Os povos indígenas isolados, que se deslocaram para os lugares mais inacessíveis da Amazônia para fugir da violência das frentes de expansão econômica capitalista e para manter a sua liberdade, têm direito à vida, a seus territórios e o respeito à opção que fizeram, assegurados pela legislação brasileira e pelos Tratados e Convenções Internacionais dos quais o Brasil é signatário. A ninguém cabe desrespeitá-los, muito menos aqueles a quem foi confiado a responsabilidade de zelar pelo seu cumprimento.
 
Trazemos aqui um trecho do documento final do Sínodo da Amazônia: “a ganância pela terra está na raiz dos conflitos que levam ao etnocídio, além do assassinato e criminalização dos movimentos sociais e de seus líderes. A demarcação e proteção da terra é uma obrigação dos estados nacionais e seus respectivos governos”.
 
Conforme disse o papa Francisco em Porto Maldonado, no Peru, em janeiro de 2018, os povos indígenas “são os mais vulneráveis entre os vulneráveis (…) continuem defendendo esses irmãos mais vulneráveis. Sua presença nos lembra que não podemos dispor dos bens comuns ao ritmo da avidez do consumo”.
 
Fonte: Cimi
Imagem: Divulgação