
Certo dia, um governante que estava sentado na poltrona de onde controlava o reino foi tomado de súbito espanto quando vieram lhe informar que no início do próximo ciclo ele deveria deixar o assento, para que um outro que havia sido eleito pudesse ter a sua vez. Porém, como iria, ele, deixar a sua cadeira?
Olhando espantado e ao redor, o governante buscou no olhar dos outros a confirmação de seu pensamento:
- Estou sendo roubado, não!?
O silêncio na sala o deixava perplexo, confuso. Como não eram todos tomados pela mesma indagação, pela mesma indignação?
- Acontece, senhor, que o pleito pela cadeira ocorreu… - Disse um, sendo interrompido.
- Minha cadeira!? - Exclamou o governante.
- Não, não - Disse outro - Desta aí, na qual tu estás sentado… - Havendo nova interrupção.
- Então, como não me roubaram, se querem me tirar justamente esta na que me sento!? - Falou o governante.
- É que justo esta não é tua, lembras que ela já estava aqui muito antes de ti, quando tu viestes? - Pontuou o terceiro.
Essa pequena história conta uma situação que pode surgir quando o sujeito, ao olhar o lugar que ocupa - o lugar no qual se vê -, não o percebe como uma montagem composta de um lugar “vazio” preenchido por um “objeto”. Na história acima, o governante não se vê separado do lugar que ocupa, que é temporário, achando que a sua deposição (por força de um rito, que provoca a saída daquela posição) é a usurpação de algo seu. O objeto, nesse caso, a pessoa do governante, confunde-se com o lugar vazio, que é o posto de mandatário.
Quando trazemos essa metáfora para outra cena cotidiana podemos pensar em nossos objetivos, ser feliz, ter sucesso, ser respeitado, como lugares vazios que preenchemos com objetos que nos dão o indicativo de que “chegamos lá”. Porém, quando vivemos em um tempo permeado pelas redes sociais que apresentam soluções prontas, massificadas e com promessas que um determinado caminho irá garantir que chegaremos no nosso objetivo, ao nos filiarmos a esses modelos, repetimos a história do governante.
Se não temos a possibilidade de pôr em dúvida o que é ser feliz, ter sucesso ou ser respeitado (entre tantas outras coisas), elegeremos uma única via como aquela capaz de nos fazer alcançar um ideal. Esta fusão, tem um efeito devastador para a diversidade, seja na nossa própria busca por algum ideal, seja no respeito de que outras pessoas alcancem este mesmo ideal por outras vias.
Retornemos, agora, ao título: “Há espaço para a dúvida na Saúde Mental?”
Se tomamos a Saúde Mental como um espaço vago, é possível ocuparmos ele de várias maneiras. Mas também há a possibilidade de definirmos estereótipos do saudável, como o ser feliz, o não sofrer, o conseguir trabalhar muitíssimas horas por dia, como sinônimos de saúde. Como há também a possibilidade de criarmos o lugar vago de uma “falta de saúde mental” e elencarmos determinados sintomas como sempre sendo um indicativo dessa falta em diferentes culturas e tempos.
Portanto, se quisermos uma Saúde Mental que contemple a diversidade, precisamos estar atentos à forma com a qual nos relacionamos com esses espaços vagos, pois os sentidos prontos e os excessos de sentido, preenchem os lugares de uma forma que funde
o objeto a um determinado lugar. É a possibilidade de sustentar uma dúvida que libera espaço para que uma Saúde Mental possa ser construída.
Quando antes nos perguntamos se há espaço para a dúvida na Saúde Mental, agora podemos inverter a ordem das palavras, dizendo que é a dúvida que abre espaço para a Saúde Mental. Abre espaço para uma Saúde Mental que não é prescritiva de como todos e cada um deve viver.
A possibilidade dessa abertura de espaço nos coloca o desafio contraintuitivo de nosso tempo, em que entendemos que as crises são sempre - ou quase sempre - faltas de sentido, quando justamente podem apontar o transbordamento de sentido. Que quando nós mesmos, e principalmente quando ouvimos outras pessoas aflitas por não terem atingido um objetivo, pode ser essencial não corrermos para suturar o sentido perdido em decorrência de um descolamento do objeto ao lugar, mas sustentar a possibilidade de que o lugar pode vir a ser ocupado por um outro - objeto, ou governante. Correr para colar o sentido que se desgruda de seu lugar pode reforçar a fantasia de que só há um que possa se assentar naquele lugar.
Por Afonso Wenneker Roveda - Psicólogo e psicanalista, foi titular no Conselho Municipal de Saúde de Lajeado, RS, representando o CONIC RS de 2018 a 2020.