
Março nos convida a olhar com mais atenção para a vida, a história e a vocação das mulheres. No dia 8, celebramos o Dia Internacional da Mulher, data que nasceu das lutas por direitos, participação social e busca por reconhecimento e dignidade. Enquanto pessoas cristãs, este mês é também um chamado espiritual: reconhecer o dom de Deus na vida das mulheres, arrepender-nos das estruturas de exclusão e renovar o compromisso com a justiça do Reino.
Mulheres na história da salvação
A Escritura revela mulheres como protagonistas da história de Deus com a humanidade. Desde a coragem de Débora, juíza e líder do povo, à fidelidade de Rute; da ousadia de Ester à sabedoria de Maria de Nazaré, que acolhe o projeto divino com seu “faça-se”, vemos que a revelação não se constrói à margem das mulheres, mas com elas e por meio delas.
Nos Evangelhos, Jesus rompe barreiras culturais e religiosas ao dialogar com a mulher samaritana, ao acolher Maria de Betânia como discípula, ao permitir que mulheres participassem ativamente de seu ministério. Aliás, são mulheres as primeiras testemunhas da ressurreição, anúncio fundante da fé cristã. A comunidade nascente, relatada em Atos e nas cartas apostólicas, também contou com lideranças femininas que serviam, ensinavam e organizavam igrejas domésticas.
Celebrar o mês da mulher é, portanto, redescobrir que discipulado e liderança não são concessões culturais, mas expressões da ação do Espírito Santo.
Desafios que persistem
Apesar dos avanços sociais e eclesiais, muitas mulheres ainda enfrentam desigualdades salariais, sobrecarga de trabalho, violência doméstica, discriminação racial e exclusão de espaços de decisão. No contexto brasileiro, esses desafios se agravam quando atravessados por marcadores como raça, classe social, território e idade.
As igrejas não estão imunes a essas realidades. Por isso, o compromisso ecumênico precisa ser concreto:
- Promover espaços seguros de escuta e acolhimento;
- Incentivar a formação teológica e pastoral de mulheres;
- Garantir participação efetiva em instâncias de liderança;
- Denunciar toda forma de violência e opressão.
O testemunho cristão perde credibilidade quando proclama amor e mantém estruturas injustas.
O contrário também é verdadeiro: torna-se sinal do Reino quando se converte, reforma práticas e abre caminhos de equidade.
Ecumenismo que transforma
O CONIC, como espaço de diálogo e cooperação entre diferentes tradições cristãs, tem a vocação de fortalecer iniciativas conjuntas em defesa da vida das mulheres. O ecumenismo é mais do que convivência institucional; é compromisso comum com a justiça de Deus, que “derruba do trono os poderosos e exalta os humildes”.
Quando igrejas caminham juntas, ampliam sua voz profética. Que tal articular campanhas de conscientização, apoiar políticas públicas que protejam mulheres e meninas, e promover reflexões bíblicas que superem leituras distorcidas usadas para justificar submissão ou violência?
Uma espiritualidade de cuidado e coragem
Março nos convida a cultivar uma espiritualidade que una cuidado e coragem. Cuidado para reconhecer as dores ainda presentes; coragem para transformar estruturas. Cuidado para ouvir histórias silenciadas; coragem para rever tradições à luz do Evangelho.
Que neste mês da mulher nossas comunidades:
- Agradeçam pelo testemunho fiel de tantas mulheres que sustentam a vida das igrejas;
- Reafirmem o compromisso com relações justas e respeitosas;
- Sejam sinal de esperança para meninas e jovens que buscam referências de fé e dignidade.
Celebrar as mulheres é celebrar a própria ação de Deus na história. Que o Espírito Santo nos conduza a uma prática cristã cada vez mais inclusiva, justa e fraterna — onde mulheres e homens, criados à imagem e semelhança de Deus, caminhem lado a lado na missão de anunciar e viver o Evangelho da paz.