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As Igrejas e o Imperativo da Justiça: por que o combate ao racismo religioso é uma responsabilidade da fé cristã

As Igrejas e o Imperativo da Justiça: por que o combate ao racismo religioso é uma responsabilidade da fé cristã

Por: Pr. Bruno Aguiar

 

As Igrejas e o Imperativo da Justiça 


“Falar sobre o compromisso das igrejas cristãs com a luta antirracista exige, antes de tudo, honestidade. É preciso reconhecer que, embora a tradição bíblica não trate do racismo moderno tal como o conhecemos hoje — especialmente em sua dimensão histórica ligada à escravização e desumanização de povos negros — toda a Escritura está atravessada por um princípio ético inegociável: Deus não legitima sistemas que negam dignidade, humanidade e justiça a qualquer povo”.1

A revelação bíblica aponta continuamente para uma espiritualidade fundamentada no amor ao próximo, na hospitalidade, na justiça e no reconhecimento da dignidade humana como expressão da própria imagem divina. Isso significa afirmar que toda prática religiosa que inferioriza pessoas, culturas ou formas de existência contradiz radicalmente o coração do Evangelho.

Ao longo dos séculos, setores do cristianismo não apenas falharam em combater estruturas de opressão racial, como participaram ativamente da construção de sistemas que legitimaram violência, exclusão e apagamento cultural. A colonização europeia não impôs apenas domínio territorial; impôs também uma compreensão religiosa segundo a qual existia apenas uma forma legítima de espiritualidade, uma única experiência válida de humanidade e um único modelo aceitável de civilização.

Quando espaços sagrados de religiões afro-brasileiras são atacados, quando símbolos ancestrais são demonizados, quando práticas espirituais negras são associadas publicamente ao mal, não estamos diante apenas de divergências religiosas. Nomear esse fenômeno apenas como intolerância religiosa é insuficiente.

Estamos falando de racismo religioso. E isso precisa ser dito com todas as letras. A história brasileira revela que a perseguição às tradições religiosas de matriz africana nunca foi um acidente ou um fenômeno isolado. Desde o período colonial, estruturas políticas e religiosas atuaram juntas para criminalizar práticas espirituais que não correspondiam ao modelo cristão europeu dominante. Mesmo após a formal separação entre Estado e religião, essas comunidades continuaram sendo tratadas como ameaça social, alvo de perseguição institucional e objeto constante de estigmatização.

Tal realidade nos obriga a levantar uma pergunta incômoda às igrejas cristãs: de que maneira nossas comunidades, consciente ou inconscientemente, continuam alimentando estruturas que ferem a dignidade de povos historicamente marginalizados?

Não basta afirmar que somos contra o racismo. É preciso desmontar as estruturas que permitem sua continuidade dentro dos próprios espaços religiosos. As igrejas vinculadas ao Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC – possuem uma responsabilidade histórica nesse processo. O testemunho cristão no presente exige mais do que boas intenções ou discursos públicos ocasionais. Exige conversão institucional. 

Isso significa, em primeiro lugar, revisar criticamente a própria formação teológica. Durante muito tempo, discursos religiosos contribuíram para naturalizar hierarquias raciais, legitimar violências coloniais e construir imaginários onde tudo aquilo ligado à ancestralidade negra era percebido como ameaça espiritual. Em segundo lugar, combater o racismo exige revisitar a forma como ensinamos Bíblia, história da igreja e missão cristã. Também enfrentar diretamente o racismo religioso presente no cotidiano das comunidades. Ainda hoje, em muitos espaços cristãos, permanece a lógica que demoniza religiões afro-brasileiras, transforma a diferença religiosa em inimiga espiritual e legitima discursos de hostilidade sob o argumento da defesa da fé.

Mas nenhuma fé comprometida com Jesus pode ser construída a partir da negação da humanidade do outro. Além disso, torna-se urgente construir alianças concretas. Igrejas comprometidas com o Evangelho precisam estar dispostas a caminhar ao lado de movimentos negros, comunidades tradicionais de terreiro, organizações de direitos humanos e iniciativas que defendam a liberdade religiosa como princípio democrático fundamental, porque o silêncio também produz violência.

Talvez uma das tarefas mais urgentes do cristianismo brasileiro seja reconhecer que o racismo não é apenas um problema externo à igreja. Ele atravessa liturgias, linguagens, estruturas de poder, representações de Deus e modelos de liderança que historicamente privilegiaram referências brancas, eurocêntricas e coloniais.

A pergunta que permanece é inevitável: como anunciar reconciliação sem enfrentar as estruturas que continuam produzindo exclusão? Seguir Jesus sempre significou estar ao lado daqueles e daquelas cujas dignidades foi negada pelos sistemas dominantes de seu tempo. Por isso, o combate ao racismo religioso não pode ser tratado como um debate periférico dentro da missão da igreja.

Trata-se de discernir que tipo de testemunho queremos oferecer ao mundo. Ou continuaremos reproduzindo estruturas históricas de violência ou assumiremos o compromisso radical de construir comunidades que se tornem sinais concretos de reparação, justiça e dignidade.

Não existe Evangelho verdadeiro quando a fé deixa de ser caminho de libertação e passa a sustentar estruturas de violência, exclusão e morte. Sempre que povos são perseguidos por sua ancestralidade, quando tradições sagradas são criminalizadas e espiritualidades negras continuam sendo alvo de desprezo e demonização, não estamos diante apenas de ataques individuais ou conflitos religiosos: estamos diante da continuidade de uma história brutal de desumanização que insiste em permanecer viva em nossa sociedade.

As igrejas cristãs precisam decidir, com coragem e honestidade, qual será o seu lugar nesta história. Ou continuaremos repetindo silêncios que legitimam injustiças, ou assumiremos o compromisso radical de seguir o Cristo que rompe muros, confronta poderes opressores e restitui dignidade àqueles e àquelas que foram historicamente violentados.

Porque combater o racismo religioso não é aderir a uma pauta externa à fé cristã. É, talvez, uma das formas mais urgentes e concretas de testemunhar, no presente, o Reino de Deus que anunciamos.

Referências:

  1. Robson de (org.). Por uma fé contra o racismo: temas especiais | racismo: revista de educação cristã para adultos. 1. ed. São Paulo: Pendão Real, 2020.
  2. ROCHA, Carolina. “Racismo Religioso”. Religião e Poder, 23 mar. 2022. Acesso em: 01 jul. 2026.

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