
O Apóstolo Paulo dirá que “o que agora vemos é como uma imagem imperfeita num espelho embaçado, mas depois veremos face a face” (1 Cor 13,12). E justamente é essa a reflexão que pretendemos fazer. Ao falar de espelho, pensamos em reflexo, de onde provém a luz que ajuda iluminando a enxergar, a tornar claro, embora ainda o espelho esteja embaçado.
Muitos de nós não estamos conseguindo reconhecer que o momento atual ao trazer uma reflexão sobre a sociedade brasileira oferece uma reflexão sobre nossas comunidades, nossas famílias e cada um de nós. Diante da busca pela verdade não há como escapar da luz que ilumina e ao mesmo tempo revela, dissipa as trevas, traz à tona o que está oculto, escondido.
O momento atual pede de nós discernimento sobre os valores, o referencial ético e a atitude cristã diante da verdade sobre nós mesmos. Cada um de nós está sendo confrontado a perguntar-se profundamente sobre o seu modo de viver a sua fé, e sobretudo os cristãos, são interpelados agora a reconhecer serem capazes de se elevar para não caírem numa espécie de imundícia que apequena-nos fazendo sermos do tamanho de nossas ideologias.
Ultrapassar as ideologias e permitir que a verdade nos liberte é o convite do momento presente. Somos provocados pela luz da Palavra a olhar o que está ocorrendo em nossa sociedade como um reflexo do que somos, pois, nossas escolhas dizem muito sobre cada um de nós e das consequências dessas opções.
Escutar o Evangelho que nos provoca como Jesus disse aos fariseus é um convite a deixar ser interpelado pela Palavra, quando diz: “- Aí de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Pois vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de imundícia. Assim são vocês: por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e iniquidade” (Mt 23, 27-28).
A Palavra ilumina trazendo verdade e assim faz com que a mentira se revele, o que está escondido se mostre. Cada um é chamado a fazer um exame profundo de consciência, pois não se pode querer buscar a verdade sem reconhecer o que está se fazendo. Não se pode ser luz estando nas trevas e ou permanecendo nelas. E aqui se coloca o desafio diante do momento atual, pois os cristãos estão no mundo, mas não são do mundo, ou seja, não podem se identificar com o ódio nem com a mentira. Bento XIV na sua obra “Jesus de Nazaré” afirma que o tornar-se cristão é assumir a cruz a cada dia, e isso significa lutar para que o amor vença o ódio e a verdade vença a mentira.
O momento atual vivido nas disputas ideológicas políticas está sendo atravessado por uma luz que agora irradia provocando a busca da verdade, e teologicamente essa busca é pela verdade do próprio ser humano que encontra o sentido de sua realização plena na Luz e na Verdade que é o próprio Deus.
Quanto mais o ser humano é transparente mais ele vive a experiência profunda de reconhecer a altura de dignidade que lhe foi dada, isto é, quanto mais ele vive em retidão e sua consciência através da razão busca o bem, mais próximo da verdade de si mesmo e de Deus, ele está. Não é possível viver na dignidade própria de filho de Deus sem esse progresso moral, o qual à luz da fé cristã, nos faz ser cada vez mais amorosos, pois, a revelação divina, em Cristo Jesus, mostra-nos que Deus é Amor.
Que sejamos capazes de reconhecer a oportunidade que está sendo dada de participarmos da história compreendendo que cada um de nós é iluminado pela Luz que dissipa todas as trevas, fazendo-nos enxergar, nem que seja através de um espelho embaçado, que ao escolher o ódio e a mentira nos afastamos da Luz e da Verdade e que o momento presente está nos provocando a decidir por escolher viver para Cristo, pois como ensina São João em sua Primeira Carta: “Quem ama é nascido de Deus e conhece a Deus, aquele que não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: Que Deus enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que por ele vivamos. Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propriação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, também devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus, se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o seu amor”. (1 Jo 4,7-12).
Ensina o místico São João da Cruz que no entardecer da vida seremos julgados pelo amor, e agora, para nós é o tempo propício de viver a realidade nova experimentada no Batismo, isto é, deixar o eu, a lógica de pensar nas próprias necessidades e nas convicções pessoais enrijecidas e passar ao nós, ao sentido profundo de viver em comunidade, à lógica da caridade e da gratuidade, na busca por realizar-se plenamente enquanto aberto a ser transparente em relação à busca da verdade no Amor.
O encontro com Cristo transforma definitivamente o horizonte da pessoa, isto é, a sua Luz ilumina o caminho do cristão e ainda mais, faz os próprios cristãos caminharem juntos enquanto vivem no Caminho que é o próprio Jesus, renunciando a si mesmos, renunciando a toda hipocrisia e iniquidade, e carregando a cruz a cada dia, ou seja, empenhando todo dia em vencer o ódio com amor e a mentira com a verdade.
Que este momento possibilite um momento de profunda reconciliação com o Senhor fazendo-nos envergonhar de nosso pecado, do mal que fazemos, e nos faça experimentar a sua misericórdia, o seu amor redentor, o arder em nós o desejo que Ele mesmo coloca em nosso coração e reconhecer a graça que em abundância em nós se realiza a cada dia por meio do Espírito Santo que renova-nos em permanente conversão e que age sobre o mundo, pois, Ele faz novas todas as coisas e em nós atua para que possamos realizar o sentido de nossa humanidade num movimento permanente de metamorfose necessária, quando já não somos nós que vivemos mas Cristo em nós. (Cf. Gl. 2,20).
Ultrapassar a nós mesmos, buscando a Cristo, é viver a partir da fé que nos faz esforçar na caridade e na firme esperança que nos coloca na condição de testemunhas do amor e da verdade ao compreender que “não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus” (1 Cor 2, 12). Nesta passagem, o Apóstolo, convida-nos a entender que o homem natural não compreende as coisas do Espírito, enquanto o espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido” (1 Cor 2, 14-15). E por quê? Porque ele tem a mente de Cristo (1 Cor 2, 16).
Que possamos enxergar, apesar de ainda ver como um espelho embaçado, a luz que reflete sobre nós convidando a reconhecer que ela habita cada um de nós convidando-nos a deixar ser iluminado em nossas escolhas, sobretudo, levando-nos a cada vez mais abrir-se à docilidade do Espírito que nos faz ter a mente de Cristo através do cultivo em nós dos mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo. (Cf. Fl 2,5).
Essa reflexão é sobre a nossa peregrinação para a Pátria celeste, e para lá caminha quem procura viver na verdade e no amor, pois “verdade e amor são os caminhos do Senhor” (Sl 24)
Que assim seja para nós, enquanto nossas escolhas aqui já estejam na perspectiva da justiça que abraça a paz, ou como dirá Santo Agostinho, que a beija, pois: “O amor e a fidelidade se encontrarão; a justiça e a paz se abraçarão. A fidelidade das pessoas brotará da terra, e a justiça de Deus olhará lá do céu. O Senhor Deus nos dará o que é bom, e a nossa terra produzirá as suas colheitas. A justiça irá adiante do Senhor e prepara o caminho para ele”. (Sl 85, 10-13).
Por: Pe. José Antonio Boareto - Assessor para a Dimensão do Ecumenismo e diálogo inter-religioso da Diocese de Bragança Paulista, Professor de Teologia e Pesquisador do Observatório Puc-Campinas e membro do GREDIRE CNBB.