
Ato Ecumênico em memória do jornalista Vladimir Herzog, realizado na Catedral da Sé, em São Paulo, em 1975.
O movimento ecumênico toma forma no Brasil quando várias igrejas cristãs conversaram entre si, diante de um contexto brasileiro de ditadura militar, desrespeito aos Direitos Humanos, cerceamento da liberdade de expressão, perseguição a lideranças das Igrejas que, seguindo o exemplo do Mestre Jesus Cristo, ergueram suas vozes proféticas denunciando a repressão, perseguição, tortura e morte de pessoas que lutavam por um Brasil sem ditadura, com respeito aos Direitos Humanos, mais justo e democrático.
E assim nascem as duas principais organizações ecumênicas do Brasil: A Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) em 1973, com sua sede em Salvador, Bahia, e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) em 1982, com sede em Brasília, as duas compostas praticamente pelas mesmas igrejas cristãs: Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB), Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU) e Aliança de Batistas do Brasil (ABB). A CESE ainda tem a Igreja Presbiteriana Independente (IPI) na sua diretoria institucional.
A luta por Direitos Humanos compõe a espinha dorsal de qualquer organização/movimento ecumênico no Brasil. Foi assim no início, em plena ditadura militar, e tem sido ampliada nas décadas seguintes, com a instalação da democracia no país. Foi em plena ditadura militar que um cardeal católico (D. Paulo Evaristo Arns), um rabino judeu (Henri Sobel) e um pastor presbiteriano (Rev. Jaime Wright) se uniram para uma celebração ecumênica na Catedral da Sé, em São Paulo, um protesto silencioso de 5 mil pessoas em memória do jornalista judeu Vladimir Herzog, torturado e morto em seus porões em 1975. Foi a união deste pastor presbiteriano e o cardeal católico que gestou e possibilitou o levantamento de dados oficiais da repressão que culminou na edição e lançamento do livro “Brasil Nunca Mais” em 1985, escancarando para todos as barbáries praticadas pela ditadura militar.
O movimento ecumênico estende a mão aos menos favorecidos, marginalizados da sociedade, dando oportunidade de suas vozes serem ouvidas, oferecendo oportunidades para quilombolas, povos originários, mulheres negras, jovens, comunidades diversas de serem protagonistas de suas próprias histórias.
A democracia e o movimento ecumênico têm em comum palavras/conceitos, como Respeito, Diálogo, Cuidado da Casa Comum, promoção da Dignidade, do Bem Comum de todas as pessoas. O movimento ecumênico busca seguir os princípios cristãos deixados pelo Evangelho de Jesus Cristo, como paz com justiça, amor ao próximo, respeito e ajuda às pessoas marginalizadas, solidariedade.
Valores democráticos e princípios ecumênicos se unem, e buscam caminhar juntos para garantir direitos conquistados e consolidados. Se a democracia estiver em risco, cabe ao movimento ecumênico, ao lado de organizações civis, levantar a voz, denunciar e lutar por ela.
Considero que Santo Agostinho expressou muito bem a essência do ecumenismo, quando disse: “No essencial, UNIDADE; na dúvida, LIBERDADE; acima de tudo, que prevaleça o AMOR”.
Por: Presbítera Anita Sue Wright Torres – Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU)